Maria do Carmo, como Flávio Bolsonaro, não vê problema em pedir dinheiro do crime

O problema, contudo, está em naturalizar a promiscuidade entre interesses privados, dinheiro público e poder político.

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 15/05/2026 às 12:20 | Atualizado em: 15/05/2026 às 12:25

O vídeo de 33 segundos divulgado pela pré-candidata do PL de Bolsonaro ao Governo do Amazonas, Maria do Carmo Seffair, não é apenas mequetrefe do ponto de vista técnico. É, sobretudo, revelador.

Revelador de uma concepção de poder, de ética pública e de compromisso institucional que desmonta a personagem da “nova política” que tenta construir nos últimos anos.

Há algo de simbólico no fato de Maria do Carmo ter levado quase dois dias para se pronunciar sobre o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro e sua íntima ligação com o caso Master.

Não se tratou de uma reação impulsiva, de uma frase atravessada pelo calor da crise ou pelo improviso. Houve tempo. Tempo para refletir, para medir palavras, para consultar aliados, marqueteiros e estrategistas.

E, depois de tanto pensar, a conclusão pública da candidata foi essa: ela “não viu nenhuma irregularidade” em um senador pedir patrocínio de um banco para um filme.

A frase seria grave em qualquer contexto. Torna-se escandalosa diante das circunstâncias.

Porque não se está falando de uma relação comercial comum, transparente e institucional.

O centro do caso envolve um banco ligado ao maior escândalo financeiro recente do país, um conglomerado cercado de suspeitas, relações obscuras e ramificações políticas.

E Maria do Carmo escolheu tratar tudo como uma banalidade, algo “que nós já estamos acostumados a ver”.

E talvez aí esteja a parte mais sincera de seu vídeo. Veja:

Bolsonarista naturaliza promiscuidade

O problema não é apenas relativizar o episódio. O problema é naturalizar a promiscuidade entre interesses privados, dinheiro público e poder político.

É tratar como trivial a aproximação entre um senador da República e agentes envolvidos em esquemas sob investigação.

O vídeo é mequetrefe também na forma.

A estética improvisada, o enquadramento pobre e o tom displicente destoam completamente da comunicação sofisticada que sua pré-campanha costuma apresentar.

Mas, o amadorismo técnico acaba sendo pequeno diante do conteúdo político que emergiu ali.

Em meio minuto, Maria do Carmo mostrou mais de si do que talvez desejasse mostrar em toda a campanha que já está fazendo em busca do poder.

Os 33 segundos dizem muito sobre o que ela entende por serviço público.

Dizem sobre sua tolerância com práticas incompatíveis com os princípios constitucionais da administração pública, especialmente aqueles previstos no artigo 37 da Constituição: legalidade, moralidade e impessoalidade.

Afinal, considerar normal que um senador peça dinheiro ao líder de um esquema financeiro bilionário não é apenas um erro de avaliação política. É uma escolha moral.

Mais do que isso: é um alinhamento.

Flávio Bolsonaro carrega há anos o peso de investigações, relações controversas e proximidade política com figuras ligadas às milícias do Rio de Janeiro.

E agora, no chamado caso Master, as sombras voltam a aparecer conforme detalhes da atuação do grupo se tornam públicos.

Não é irrelevante lembrar que o banco recebeu dinheiro público, inclusive recursos do Amazonas.

Estratégia batida

Ainda assim, a pré-candidata preferiu enxergar apenas uma “tempestade provocada por disputa eleitoral”.

É o argumento clássico de quem decide atacar a repercussão em vez de enfrentar os fatos. Quando a gravidade do caso se torna inconveniente, transforma-se tudo em narrativa eleitoral, perseguição ou exagero da imprensa. O roteiro é velho.

O problema para Maria do Carmo é que, nesse esforço de defender seu aliado político, acabou revelando algo mais profundo: sua incapacidade de distinguir normalidade institucional de degradação ética.

E isso, para quem deseja governar um estado, talvez seja o aspecto mais preocupante de todos.

Leia mais

Foto: divulgação/Assessoria MC