Militares revelam a história do crime organizado no Amazonas
Obra sobre FDN, CV e PCC expõe como rios, pobreza e ausência do Estado fortaleceram o crime organizado no Norte.
Publicado em: 12/05/2026 às 12:57 | Atualizado em: 12/05/2026 às 12:59
Pichações das siglas FDN e CV em muros e prédios sugiram em Manaus no começo dos anos 2000.
As duas letras anunciavam, sem discrição, uma nova ordem nos negócios dos traficantes de drogas na região Norte do país.
Imprimiu-se, a partir daí, o redesenho do tráfico de cocaína e maconha para enquadrar os traficantes “independentes” ou “avulsos” a um comando.
O desenrolar dessa história, escrita a seis mãos, está no livro “Nas sombras da floresta; histórias contadas sobre facções e o crime organizado na Amazônia” (Valer), de autoria de César Mello, Marcus Vinícius e Francisco Camurça.
O lançamento está marcado para o dia 28 de maio, às 19h, na livraria Valer Teatro, no largo de São Sebastião, centro da capital.
O desembargador Jomar Fernandes, presidente do Tribunal de Justiça do Amazonas, é o prefaciado da obra, e a saúda com essa avaliação:
- ➢ “O livro oferece mais do que uma descrição detalhada do modus operandi das facções criminosas na Amazônia: ele lança luz sobre a erosão progressiva do Estado de Direito em territórios estratégicos da nação”.
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O livro revela como surgiu a facção criminosa Família do Norte (FDN) e como ela se comportou diante da entrada do Comando Vermelho (CV), originária do Rio de Janeiro, e do Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação a partir de São Paulo.
Os três autores são profissionais da segurança pública que atuam em áreas estratégicas do combate à produção, ao transporte (distribuição) e à comercialização de drogas na região Norte.
Não por acaso, eles também apresentam um retrato socioeconômico dos lugares que dão suporte logístico às organizações criminosas.
Entre as suas características comuns, estão a ausência do estado e, consequentemente, a presença da pobreza e da violência.
Sombras da floresta
O crime organizado conta ainda com o favorecimento da complexa geografia da região, formada por intricados caminhos de rios e florestas, que dificultariam a repressão dos órgãos de segurança.
Enquanto, o estado dispõe de recursos de pessoal e tecnológico limitados paras esse tipo de missão, os narcotraficantes dispõem de barcos potentes, aviões, “soldados” nativos, armas pesadas e recursos para corromper até agentes públicos.
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Rota Solimões
O Brasil não é considerado como produtor de maconha e cocaína, as principais drogas comercializadas no país e no exterior.
Entretanto, é o maior “corredor” de exportação dessas drogas para a Europa e América através dos portos e aeroportos de São Paulo e Rio de Janeiro.
As drogas que saem do Paraguai e Bolívia chegam aos principais estados consumidores e exportadores pela chamada “rota caipira’ via transporte terrestre e aéreo.
Os cartéis de drogas da Colômbia e Peru, países produtores, escoam seus carregamentos, desde o Brasil, por intermédio do rio Solimões, no Amazonas.
Essa rota fluvial existe há muito tempo, porém, antes operadas por traficantes independentes ou avulsos; e desde a segunda metade dos anos 90, por uma facção criada em Manaus, no bairro da Compensa: a FDN.
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O fundador
A FDN foi criada por José Roberto Fernandes, o Zé Roberto da Compensa, ex-líder comunitário, que hoje cumpre pena por assassinato e tráfico de drogas na penitenciária federal de Campo Grande (MS).
O controle da “rota do Solimões” permaneceu com a FDN até fevereiro de 2005, quando ela foi riscada do mapa pela manobra de um dos seus graduados a serviço do CV.
O “traidor” começou com disseminação nas penitenciárias de que havia entre eles gente infiltrada do PCC, recém-chegada ao estado e interessada no controle da rota.
Sob o argumento de liquidar o PCC, o “traíra” arrecadou todo o armamento do grupo e, ao invés de cumprir o prometido, transferiu-se para do CV, com intenção de se tornar chefia regional dessa facção.
Com seus fundadores na cadeia, os líderes que ficaram “aqui fora” estavam enfraquecidos porque arrecadavam dinheiros dos afiliados, mas ao invés de manter a política assistencialista de Zé Roberto, passaram a morar, esbanjar e investir no Nordeste, principalmente em Fortaleza.
Logo, todos membros da FDN migraram para o CV, desde então controlador da rota do narcotráfico pelo rio Solimões.
O golpe fatal contra a FDN ocorreu, segundo assegura o livro, em 10 de fevereiro de 2020, data que a facção comemora com um intenso foguetório em todo o estado, sempre às primeiras horas da noite.
CV acolhe “novo cangaço”
“Sombras da floresta” também revela os bastidores da entrada do CV no estado do Pará, em 17 de agosto de 2006, com a transferência de membros da “Gangue do Cangaço” do Complexo Penitenciário de Americano, a 60 quilômetros de Belém, para a recém-inaugurada penitenciária de Catanduvas, no interior do Paraná.
Os novos cangaceiros eram assaltantes que sitiavam as cidades enquanto limpavam os cofres dos bancos.
No Pará, eles tocaram terror nas cidades de Tucuruí e Redenção.
Em Catanduvas, os “cangaceiros” foram acolhidos pelo chefe do CV, Fernandinho Beira-Mar, que lhes patrocinou advogados e apoio financeiro aos seus familiares.
Em troca, contou com o bando para estender o CV ao Pará, estado estratégico no escoamento da cocaína e da maconha que atravessa o rio Solimões, chamado de Amazonas desde o encontro das suas águas barrentas com as águas do rio Negro que banham Manaus.
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Questão social
O que o livro aborda não são meros fatos policiais e judiciais envolvendo as facções criminosas no norte do país.
Os autores demonstram, também como as organizações criminosas, com logística sofisticada, armamento pesado e muito dinheiro, cooptam moradores de lugares e cidades ribeirinhas amazônicas para seus “exércitos de foras da lei”.
E, também, agentes públicos corruptos, inclusive policiais e políticos, como assinala o livro.
Por essa razão, trata-se de uma obra que importa à formulação de políticas públicas e ações repressivas para combatê-las em suas estruturas.
Perfis dos autores
- ➢ César Maurício de Abreu Mello. Doutor em ciências pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da Universidade Federal do Pará (UFPA). É coronel da reserva da Polícia Militar do Pará e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
- ➢ Marcus Vinícius Oliveira de Almeida. Comandante da Política Militar do Amazonas (2021-2023) e secretário de estado da Administração Penitenciária do Amazonas (2019-2021) e da Segurança Pública (2019-2026). É coronel reservista da Polícia Militar.
- ➢ Francisco Camurça Bezerra Neto. Mestre em políticas públicas pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e pós-graduado em gestão pública aplicada à segurança e em gestão de segurança corporativa. É major da Polícia Militar do Amazonas.
Foto: divulgação
