Neste dia 16 de junho, véspera da estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Rússia, o presidente da Federação Amazonense de Futebol (FAF), Dissica Valério Tomaz, se topou convite, está desfrutando em terras russas dos privilégios dados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ele é um dos convidados do “voo da alegria” que a entidade organizou para levar os dirigentes estaduais ao outro lado do mundo. Com tudo pago.

A comitiva, para assistir as três partidas do Brasil na fase de grupos, vai passar pelo menos 19 dias em solo russo. Além dos 27 presidentes de federações, são convidados da CBF cartolas do Atlético Mineiro, Bahia, Atlético Paranaense, Ceará, São Paulo, Avaí, Guarani, CRB, Brasil de Pelotas e Paysandu, clubes das séries A e B.

Ressalte-se nesse episódio a ausência total de transparência tanto da CBF quanto da FAF. Em seus sites, nenhuma linha sobre o “voo da alegria”.

A viagem, com todas as despesas pagas, é apenas um dos mimos que os dirigentes do futebol brasileiro usam para se perpetuar no poder. O convite irrecusável para o “voo da alegria” à Rússia, por exemplo, chegou à mesa de Dissica e dos demais 26 presidentes das federações estaduais ainda em fevereiro. Menos de dois meses para a eleição na CBF.

Resultado: em abril, Rogério Caboclo era eleito presidente da CBF pela unanimidade dos 27 votos dos presidentes das federações.

Essa estratégia da CBF se repete ao longo da história, mantendo os votos de cabresto dos dirigentes das federações em troca de regalos, como convites para chefiar delegações da seleção em amistosos e torneios oficiais, criação de competições regionais e mesadas.

Os dirigentes ajudam a CBF a manter quem quer no poder e são ajudados a permanecer no comando em seus estados. É assim que Dissica se eternizou na FAF, recebendo um “mensalinho’’ de R$ 75 mil, além de mais R$ 25 mil diretamente em sua conta, conforme revela o Estadão.

Ao Estadão, a direção da CBF disse que o “voo da alegria” dos dirigentes não é a passeio, é “aprimoramento dos dirigentes em nível administrativo”. “Além dos jogos da seleção, está sendo preparada uma agenda de trabalho para os dirigentes, com reuniões institucionais e atividades de acompanhamento da organização do evento”, afirmou em nota.

 

Dissica eterno na FAF

Na seara local, Dissica também era reeleito em abril para completar, até 2023, mais de três décadas no comando do futebol do Amazonas. Nesses mais de 30 anos de Dissica na FAF, os times amazonenses caíram da primeira divisão para hoje agonizar na série D, a última do futebol nacional.

O Nacional, o mais tradicional clube profissional do Amazonas, era eliminado da série D no último domingo, dia 10, enquanto o “voo da alegria” da CBF e seus cartolas ia desfrutar dos privilégios na Rússia.

Durante essas três décadas de gestão desastrosa do futebol local, somados aos períodos em que foi prefeito do município de Eirunepé, Dissica é um nome certo nas listas de fichas-sujas dos tribunais de contas por irregularidades nas suas administrações, até com condenação transitada em julgado, ou seja, da qual não cabe mais recurso.

Em abril de 2017, a Justiça do Amazonas até chegou a afastar Dissica do comando da FAF, sob denúncia do Ministério Público do Estado (MP-AM) por contas irregulares de uma década de sua gestão. Ele voltava à cadeira no mês seguinte, por força de liminar, até o julgamento do mérito do processo, o que ainda não aconteceu.

 

Dissica

 

Entendendo a razão da falência

O presidente da FAF está entre os cinco mais longevos no cargo em todo o país. Um detalhe comum entre esses dirigentes é que eles estão à frente do futebol de estados do norte do Brasil, sem qualquer expressão no cenário nacional, se digladiando nas divisões menores do esporte.

Antes da eleição deste ano, em entrevista publicada no site da FAF, Dissica disse por que estava se candidatando:

“Entendo que posso contribuir muito com futebol do Amazonas […] estamos na área porque ainda temos muita vontade de continuar fazendo pelo futebol do Amazonas.

Dissica demonstra mesmo acreditar que faz bem ao futebol amazonense, não admitindo o desastre da sua gestão: “Erro eu não imagino nenhum que possa ter cometido […] Depois que o governo parou de ajudar o futebol, as coisas começaram a complicar”.

E completou, falando da sua relação com a CBF: “Sem falsa modéstia, acho que sou uma pessoa, que além de amar o esporte, tenho conhecimento a nível nacional junto com a direção da CBF, com a eleição de uma nova geração”.

 

Oposição massacrada pelo trator Dissica

O voto de um clube como Nacional, Rio Negro ou Fast Clube, os mais tradicionais do Amazonas, valem tanto quanto o de um presidente das 21 ligas de futebol amador do interior do estado. Aí reside todo o espaço para que Dissica se mantenha no poder, se dando o direito de desdenhar do único adversário no pleito de abril.

“Eu ganharia fechado ou aberto [tipo de votação]. De qualquer jeito, eu ganhava. Não tinha como não ganhar. Eu sei o que faço, o que realizo e como trato os meus parceiros. Eu sabia que ia ganhar”, disse ao Em Tempo.

Ele queria dizer que sabia que receberia os 28 votos que lhe garantiram mais uma reeleição. Os presidentes das ligas votaram unanimemente em Dissica.

Um dos presidentes de clubes profissionais que não votou em Dissica, o do Fast, Ednailson Rozenha, viu assim a eleição do dirigente da FAF:

“Infelizmente, no futebol amazonense não existe mudança, mesmo encontrando-se nesse estado de miséria que vivemos. Quem votou foram os clubes e as ligas. Querem que fiquem do jeito que está? Que fique. Insistem em continuar com o erro. Não tenho nada contra a pessoa Dissica. Tenho contra esse período infrutífero para o futebol amazonense”.

 

Dissica

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

 

CBF e a mancha no futebol brasileiro

A entidade que comanda o futebol no Brasil tem sua imagem manchada por crimes cometidos pelos seus dirigentes nas últimas décadas.

Ricardo Teixeira, que se viu obrigado a renunciar em 2012 ao mandato que iria até 2015, comandou a CBF desde 1989. Deixou a entidade nas mãos de José Maria Marin com um rastro de denúncias de crimes os mais diversos. Até de integrar uma “organização criminosa transnacional” que usava a seleção brasileira para lavar dinheiro.

O sucessor de Teixeira, José Maria Marin, era preso em maio de 2015, acusado de receber propina. Deixou em seu lugar Marco Polo Del Nero, logo depois banido do futebol mundial pela Fifa também por corrupção.

Rogério Caboclo, presidente eleito da CBF e chefe de delegação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, tenta se cacifar na Fifa. Para isso, esperava contar com o presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), o paraguaio Alejandro Domínguez, este próximo de Gianni Infantino, presidente da Fifa.

Na visita que Infantino fez a Domínguez no Paraguai, Caboclo foi apresentado como o homem que representaria uma nova realidade no continente sul-americano após os casos de corrupção que fracassam o futebol no Amazonas, no Brasil e na América do Sul.

Mas, Caboclo traiu a confiança de Domínguez. No último dia 13, a CBF quebrou o acordo que a Conmebol fez com os seus dez membros para votarem na candidatura conjunta de Canadá, Estados Unidos e México para a Copa do Mundo 2026.

A Conmebol chegou a anunciar, dois dias antes da eleição, que votaria em peso na candidatura americana. Porém, Caboclo resolveu levar a CBF para o lado do Marrocos, que acabou derrotado na eleição em Moscou.

Com esse desastre diplomático no mundo do futebol, a CFB virou motivo de chacota entre os cartolas em Moscou.

 

Dissica

 

Del Nero ainda dá as cartas

Jamil Chade, correspondente em Moscou para o Estadão

A CBF tem hoje um presidente legal, um presidente eleito e um presidente, de fato. Oficialmente, o comando da CBF é do coronel Antonio Carlos Nunes e ele vai representar o Brasil no Congresso da Fifa, inclusive votando para definir a próxima sede de Copa do Mundo, em 2026. Mas o jogo político interno do comando do futebol nacional é mais complexo que muito jogo de primeira fase do Mundial.

Enquanto o coronel estará em Moscou, o presidente eleito da CBF, Rogério Caboclo, lidera a delegação brasileira em Sochi e, nos próximos dias, estará em Moscou para ser apresentado à “família Fifa” como o futuro do futebol brasileiro.

Caboclo assume apenas no ano que vem, depois de uma eleição que foi realizada com apenas um candidato e depois que ficou claro que Marco Polo Del Nero seria banido do futebol por suspeitas de corrupção.

Enquanto um cartola se passa por presidente e outro assume a gestão da seleção, fontes dentro da CBF confirmam que quem manda ainda no futebol nacional é o único cartola que não está na Copa: Del Nero.

Indiciado nos EUA por corrupção, ele não pode sair do Brasil sob o risco de ser preso e acabou organizando sua própria sucessão. Mas, segundo fontes dentro da entidade, ele continua dando as cartas, definindo políticas e mantendo contato com diretores da instituição.

Leia a matéria completa no Estadão.

 

Foto: Reprodução/TV Amazonas