Situação crítica da segurança pública do AM é exposta no Senado

A Comissão de Direitos Humanos expôs o abandono institucional e a falta de estrutura nas delegacias do interior amazonense.

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 15/04/2026 às 18:07 | Atualizado em: 15/04/2026 às 18:07

Era para ser apenas uma visita de cortesia e de amizade entre duas amigas e autoridades públicas no Senado Federal. Mas, a presença da delegada de polícia de Tapauá, no Amazonas, Kelly Souto, virou uma denúncia contundente sobre a precariedade e risco na segurança do estado do Amazonas.

A manifestação foi da presidente da Comissão de Direitos Humanos, senadora Damares Alves (Republicanos-DF) nesta terça-feira (15 de abril).

Ao avistar a delegada Kelly Souto – nascida no Distrito Federal, mas que atua como titular da 64ª Delegacia Interativa de Polícia (64ª DIP) de Tapauá, localizada a 449 quilômetros de Manaus, no Amazonas – no fundo do plenário da CDH, Damares a convida para a mesa onde estava presidindo a sessão.

A parlamentar aproveitou a presença da delegada, no Senado, para ilustrar as condições, que chamou de desumanas, e os riscos extremos a que os servidores da segurança estão submetidos na região Norte do país.

Ao mesmo tempo, expôs a realidade da segurança pública no interior do Amazonas como a falta de estrutura, riscos e heroísmo de policiais no interior do estado.

Abandono institucional

Damares destacou que a situação de Kelly Souto é um reflexo do abandono institucional. Segundo a senadora, a estrutura física das delegacias é insuficiente e perigosa.

“A delegacia dela era desse tamanhinho; na cela que era para ter tipo oito, tinha 20 presos. E ela sentava numa cadeira em frente à cela porque a mesinha dela é do lado da cela”, descreveu Damares.

 A senadora também ressaltou a vulnerabilidade da profissional:

“Se aqueles homens forçassem um pouquinho que fosse, aquela grade caía. Eles estavam cumprindo pena meio que resignados porque era ela com uma [arma] na cintura, sentada numa mesa em frente a uma cela”.

Desafios logísticos

A falta de infraestrutura básica, como meios de transporte, obriga os policiais a improvisarem para cumprir o dever legal. A senadora relembrou um caso chocante de violência contra uma criança de apenas cinco dias, em que a delegada precisou agir sem suporte oficial.

“Foi essa a delegada quem fez a diligência a pé para prender o estuprador. Na região de Tapauá, não tem carro, não tem estrada, são rios. Aí ela fica esperando a carona num barquinho da prefeitura para fazer uma diligência. Como enfrentar o crime assim?”, questionou Damaras Alves.

Além da precariedade operacional, a senadora disse que a segurança pessoal dos agentes é um ponto crítico. Por se tratar de cidades pequenas em regiões de fronteira, os policiais ficam expostos a retaliações.

“Todo mundo na cidade, por ser uma cidade pequena, sabe onde a delegada mora. Olha o risco. E batem na porta, mas batem para pedir socorro, mas podem bater para se vingar da delegada”, alertou a presidente da CDH.

Problema sistêmico

O relato sobre Kelly Souto não foi o único exemplo citado para demonstrar a situação da segurança pública no estado.

Damares mencionou outra delegada que atua em região ribeirinha e que, após apreender quatro toneladas de pasta básica de cocaína, precisou guardar o material sozinha com apenas um agente.

“Ela ficou sentada ao lado de quatro toneladas com uma arma esperando um efetivo vir da capital para recolher. Passou mais de 24 horas olhando a tonelada que ela aprendeu e protegeu sozinha”, continuou a senadora em seu relator sobre a segurança no Amazonas.

Apelo ao Senado

Ao final de sua fala, Damares Alves fez um apelo ao Senado para que a segurança pública no interior do Brasil seja tratada como prioridade absoluta. Ela classificou o trabalho dessas mulheres como uma missão e um ato de coragem.

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“Muitas mulheres, profissionais, como a delegada Kelly, abriram mão do conforto e de carreiras estáveis em Brasília para proteger populações vulneráveis no extremo Norte, enfrentando um sistema que carece do básico para operar”, finalizou Damares Alves.

Foto: Reprodução de vídeo