Pssica e a fé que mata
O fio condutor de toda essa desgraça está em uma teologia punitiva. O Deus que se encarnou em Cristo foi o da libertação e do acolhimento, não o da condenação.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 06/09/2025 às 01:00 | Atualizado em: 05/09/2025 às 09:21
A série Pssica, lançada recentemente pela Netflix, tem o mérito de trazer à tona temas delicados e urgentes, como a exploração sexual e a violência que atinge tantas mulheres e meninas na Amazônia. Para quem conhece de perto a região, a narrativa não soa como ficção, mas como reconhecimento. É um avanço que uma plataforma de alcance global dê visibilidade a questões sociais muitas vezes silenciadas.
Ao longo de quatro episódios, desfilam dramas cotidianos: o assédio sofrido por adolescentes que deixam suas comunidades para viver em casas de parentes nas cidades; a violência que se desenrola nos rios e nas estradas; o tráfico de meninas na Ilha de Marajó; o uso de drogas; e, sobretudo, a presença de lideranças religiosas que, em vez de amparar, reforçam a condenação moral e o estigma.
O estopim
É justamente aí que se encontra o estopim da tragédia de Janalice, a personagem central. O sermão de uma pastora, dirigido à sua família, não traz acolhimento, mas julgamento. O discurso “em nome de Deus” legitima o ódio da mãe contra a filha, após o vazamento de um vídeo íntimo feito por um namorado inescrupuloso.
O efeito imediato é devastador. A jovem é levada de sua casa pela própria mãe, cai nas mãos de um tio abusador, e, mais tarde, é aliciada por uma rede de tráfico de meninas levadas para a Guiana Francesa. O pai, amoroso mas paralisado pela submissão religiosa, termina por tirar a própria vida, consumido pelo arrependimento.
O fio condutor de toda essa desgraça está em uma teologia punitiva, que desfigura a mensagem do evangelho. O Deus que se encarnou em Jesus Cristo foi o da libertação e do acolhimento, não o da condenação.
Exemplos de Cristo
Se tivesse seguido essa referência, a pregação da pastora teria sido a da compaixão, da restauração e do perdão. Com efeito, o que se vê, na série e na realidade, é o contrário: pseudocristãos que transformam o púlpito em tribunal e a fé em instrumento de violência simbólica.
Basta lembrar os relatos bíblicos: diante da mulher adúltera prestes a ser apedrejada, Jesus não autorizou a punição, mas desarmou os acusadores dizendo: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”. Também com a samaritana no poço, em vez de condenar sua história marcada por fracassos conjugais, ofereceu-lhe água e dignidade.
Em ambos os casos, o caminho não foi a exclusão, mas a restauração. Se a lógica de Cristo tivesse prevalecido na trama de Janalice, sua família teria encontrado redenção, e não destruição. Essa constatação não se restringe à ficção.
Conclusão
O cristianismo neopentecostal invadiu e se expandiu pelo mundo rural amazônico e, mais amplamente, por todo o campo brasileiro. Minhas viagens de pesquisa e de lazer pela região têm mostrado, repetidas vezes, a força dessa ocupação religiosa.
Nesse contexto, fica a interrogação dolorosa: quantas famílias têm sido destruídas? Quantos jovens mergulham na depressão? Quantos suicídios e quantas dores se multiplicam em consequência de pregações que, em vez de libertar, aprisionam, em vez de curar, adoecem?
É uma tragédia que Pssica escancara com contundência e que o Brasil precisa encarar sem hipocrisia.
*Sociólogo
