Quem ganha e quem perde com agenda econômica de Flávio Bolsonaro
Uma análise objetiva dos efeitos distributivos da agenda econômica associada a Flávio Bolsonaro, evidenciando quais setores tendem a se beneficiar e quais podem arcar com os custos das escolhas fiscais e sociais.
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 23/04/2026 às 09:20 | Atualizado em: 23/04/2026 às 09:20
O senador Flávio Bolsonaro já declarou que pretende seguir a linha política de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Diante disso, é possível antecipar — com base na experiência recente — quais grupos tendem a ser beneficiados e quais podem sair prejudicados, caso essa orientação seja mantida.
A discussão não é ideológica no sentido superficial do termo. Trata-se de entender, de forma objetiva, como determinadas escolhas econômicas distribuem custos e benefícios na sociedade.
Salário mínimo sem ganho real: impacto direto na base da pirâmide
Durante o governo Bolsonaro, o salário mínimo foi reajustado basicamente pela inflação, sem aumentos reais consistentes. Na prática, isso impede avanços no poder de compra dos trabalhadores de menor renda.
Quem ganha com isso?
Empresas que dependem de mão de obra intensiva e buscam reduzir custos.
Quem perde?
Milhões de trabalhadores e aposentados que têm sua renda vinculada ao salário mínimo.
Servidor público: quatro anos de compressão salarial
Grande parte do funcionalismo do Poder Executivo enfrentou um longo período sem reajustes reais. Isso significou perda de poder aquisitivo e desvalorização das carreiras públicas.
O efeito é duplo:
Alívio fiscal no curto prazo;
Deterioração gradual da capacidade do Estado de prestar serviços de qualidade.
Zona Franca de Manaus: risco à competitividade regional
A redução generalizada do IPI no governo anterior atingiu diretamente o modelo da Zona Franca de Manaus. Ao diminuir a diferença tributária, abriu-se espaço para que empresas produzissem em outras regiões os mesmos produtos fabricados em Manaus.
Isso gerou forte reação institucional, inclusive no Supremo Tribunal Federal.
Quem se beneficia?
Indústrias fora da região Norte.
Quem perde?
A economia de Manaus, os empregos locais e todo o encadeamento produtivo da região.
Saúde e educação: o risco da desvinculação
A proposta de desvincular receitas obrigatórias para saúde e educação pode parecer técnica, mas tem um efeito claro: reduzir a garantia mínima de investimento nessas áreas.
Na prática, isso significa:
Mais flexibilidade para o governo;
Menos proteção para políticas públicas essenciais.
Benefícios sociais sob pressão
Medidas de contenção de gastos frequentemente recaem sobre benefícios sociais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC). O resultado tende a ser a redução do alcance ou do valor real dessas políticas.
O ponto central pouco debatido: os juros da dívida
Há um aspecto crucial que raramente aparece no centro do debate: o custo dos juros.
Essa relação mostra que o déficit nominal não depende apenas dos gastos primários, mas também da taxa de juros sobre a dívida pública.
Se os juros permanecem elevados, o gasto com a dívida cresce — independentemente do aperto fiscal em outras áreas.
Quem ganha com juros altos?
O sistema financeiro e os detentores de títulos públicos.
Quem paga a conta?
A sociedade como um todo, via impostos e redução de gastos sociais.
Conclusão: o eleitor precisa olhar além do discurso
O debate eleitoral, portanto, não pode se limitar a slogans ou disputas superficiais. O ponto decisivo é exatamente aquele que dá título a este texto: quem ganha e quem perde com essa agenda econômica?
Se mantida a trajetória observada, os sinais são claros: os ganhos tendem a se concentrar no topo — especialmente no sistema financeiro e em setores menos dependentes do mercado interno — enquanto os custos recaem sobre trabalhadores, servidores públicos, beneficiários de políticas sociais e regiões como a Amazônia.
Em última instância, a escolha eleitoral não é apenas entre nomes, mas entre modelos de distribuição de renda, oportunidades e desenvolvimento. E essa escolha define, de forma concreta, quem avança e quem fica para trás no Brasil.
*O autor é é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: Lula Marques/Agência Brasil
