Peru repete velha e falida fórmula: exceção e ruas em revolta
População protesta contra a violência e a falta de rumo político, enquanto o novo presidente reedita medidas ineficazes
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 22/10/2025 às 22:53 | Atualizado em: 23/10/2025 às 02:06
O Peru entrou em mais um ciclo de instabilidade nesta quarta-feira (22 de outubro) com a decretação de estado de exceção por 30 dias em Lima e Callao.
A medida, anunciada pelo presidente interino José Jerí, autoriza o uso das Forças Armadas no policiamento interno, restringe direitos constitucionais e promete “recuperar o controle” sobre o crime organizado e as ruas tomadas por protestos.
Mas, a estratégia não é nova.
- “Mais que segurança, o povo quer um governo que devolva sentido à palavra ‘futuro’”.
O país tem recorrido repetidamente a decretos de exceção para lidar com crises sociais e de segurança, sem resultados duradouros.
Analistas e movimentos sociais chamam a medida de “ensaio repetido”, incapaz de atacar as causas estruturais da violência.
> “Quando o Estado decreta emergência como rotina, é o próprio contrato social que está em risco”, resume um analista ouvido pela Reuters.
Peruano nas ruas, governo sob suspeita
Enquanto soldados e policiais ocupam as principais avenidas da capital federal Lima, a população segue nas ruas, denunciando corrupção, desemprego e o aumento da criminalidade.
Em confrontos recentes, uma pessoa morreu e dezenas ficaram feridas.
Grande parte dos manifestantes pertence à chamada geração Z peruana, jovens que cresceram sob sucessivas crises políticas e agora exigem um governo capaz de restaurar o mínimo de confiança no Estado.
> “Mais tanques não resolvem o que falta de governança”, dizia uma das faixas erguidas nas manifestações, que se espalharam por vários bairros da capital.
O clima é de frustração coletiva. O povo espera um presidente que tire o país do caos político e moral, mas a nomeação de Jerí, até então pouco conhecido nacionalmente, ainda não inspira esperança.
O colapso que vem de antes
A crise atual é herança direta do governo da ex-presidente Dina Boluarte, destituída em 10 de outubro pelo Congresso por “incapacidade moral permanente” após sucessivas denúncias de corrupção e repressão violenta a protestos.
Dina havia assumido em 2022, depois da queda de Pedro Castillo, também destituído, marcando o sexto chefe de Estado em menos de uma década.
Seu governo terminou com popularidade inferior a 10% e um rastro de desconfiança institucional.
> “O problema do Peru não é só quem governa, mas o sistema que se esvaziou de credibilidade”, analisou a Al Jazeera.
Uma emergência sem horizonte
O governo Jerí promete “mudar da defesa para o ataque” contra o crime, mas a população e os especialistas alertam que a militarização das ruas não resolve a ausência de políticas de prevenção, investigação e justiça.
O país registra mais de 1,6 mil homicídios entre janeiro e setembro de 2025, segundo dados oficiais. A violência ligada ao narcotráfico e à extorsão atinge níveis inéditos, enquanto a economia desacelera e o desemprego cresce.
> “As medidas parecem feitas para durar 30 dias, quando o país precisa de 30 anos de reconstrução institucional”, comentou um analista político peruano à Associated Press.
A sensação generalizada é de que o Peru vive um estado de emergência permanente, não apenas nas ruas, mas em suas instituições.
E enquanto o governo repete fórmulas conhecidas, o povo segue à espera de uma liderança capaz de reerguer o país das ruínas da descrença.
Crise política e social no Peru
| Indicador | Situação em 2025 | Contexto Histórico |
| Homicídios | 1.690 entre janeiro e setembro (+12% em relação a 2024) | Maior número registrado na última década |
| Presidentes destituídos desde 2018 | 3 (Pedro Pablo Kuczynski, Pedro Castillo e Dina Boluarte) | Reflexo da instabilidade política crônica no país |
| População em protestos | Concentração em Lima e Callao, com forte adesão de jovens | Mobilizações lideradas pela geração Z |
| Medidas de exceção | Estado de emergência por 30 dias, com uso das Forças Armadas e restrições civis | Estratégia já adotada em 2023 e 2024, sem efeito duradouro |
| Confiança nas instituições | Abaixo de 20%, segundo pesquisa DataPerú | Um dos índices mais baixos da América Latina |
Foto: reprodução/TV Globo
