A flauta de Noel

Publicado em: 26/12/2008 às 00:00 | Atualizado em: 26/12/2008 às 00:00

Antônio Paulo*

Nesses dias que antecedem ao Natal, envolvido física, simbólica e financeiramente com essa festa milenar cristã – na compra de presentes, cartões, enfeites de pinheiros e cartas de minha filhinha endereçadas ao Papai Noel – vêm-me à memória lembranças e histórias da infância e juventude que marcaram minha vida natalina.

A começar pela primeira vez que comi carneiro com sobremesa de maçã. O estômago fraco e pobre de nutrientes não reconheceu as iguarias da ceia. Baixei ao hospital e lá fiquei internado por vários dias. Da pequena enfermaria, vi os fogos do Ano Novo.

Idem esquecer a ousadia de montar, na década de 1980, juntamente com grupo de jovens coarienses, um auto de Natal cuja história, ainda que tivesse o menino Jesus como personagem principal, seus parentes, pastores e até os reis dos presentes, era contada por ciganos. Imaginem a reação da Igreja (católica), a qual a “trupe” pertencia.

No entanto, a lembrança mais significativa dessa época tem a ver com presentes e o “bom velhinho”. Era primeira vez que ia a Manaus, acho que tinha apenas sete anos. Minha mãe me levou em uma grande loja – não posso afirmar com certeza, mas acho que era nos tempos áureos da TV Lar – foi quando vi um Papai Noel gigante, mexendo-se (ainda não falava), balançando a cabeça e anotando os pedidos da petizada. Claro, que já ouvira falar nele, pois, mesmo sendo um menino pobre do interior, sempre ganhava presentes modestos na noite de Natal. Meus irmãos, que moravam na capital, trabalhando na nascente Zona Franca, mandavam as “lembranças” ou meu pai os comprava na taberna que lhe vendia fiado.

O que me deixou encantado foi vê-lo ali tão perto e atento aos pedidos. Perguntei à minha mãe o que significava? O que ele estava fazendo? Ela respondeu: O Papai Noel anota os presentes que as crianças querem ganhar na noite de Natal. Veio-me à cabeça pedir uma bicicleta daquelas que meus colegas de escola (mais endinheirados) possuíam. Ou um carrinho de controle remoto que meu vizinho ganhara no dezembro anterior. Mas, sabendo, quase adivinhando os meus pensamentos, mamãe atalhou: Só não pode pedir brinquedos caros porque ele tem pedidos de milhares de crianças pelo mundo todo. O que eu peço, então? Perguntei obediente. Aquela flautinha que você me pediu um dia desses, cochichou ela no meu ouvido. Lá fui eu. De pé, diante daquele gigante vermelho, o coração batendo de tanta alegria e encantamento fiz o pedido tão desejado: Querido Papai Noel, quero ganhar uma flauta neste Natal!

Acho que naquele mesmo dia retornamos a Coari. De barco, que ainda levavam três dias para chegar. Em casa, não falava de outra coisa. Contava a Deus e ao mundo, à minha irmã menor, aos primos e colegas da rua que tinha visto o Papai Noel de pertinho e que ele mesmo havia anotado o meu presente. Só não falava o que era com medo de ele esquecer, trocar o pedido e eu passar por mentiroso. Tinha uns primos que nunca acreditaram em Papai Noel. E diziam: Deixa de ser besta, rapaz! É a tua mãe que compra os presentes e deixa debaixo do mosqueteiro. Eu mesmo já vi a minha fazer isso! Para mim, aquilo era uma ofensa. Corria, chorando e enredava lá em casa. Minha mãe punha-me no colo, limpava minhas lágrimas de criança inocente e me acalentava: Não liga, não, meu filho. Esses meninos não sabem o que dizem. O Papai Noel vem e vai trazer o que você pediu.

E chegou o grande dia! Nem consegui comer direito, jogar bolinha de gude ou mesmo fazer uns gols no campinho de futebol improvisado no terreno baldio lá nos fundos de casa. Caiu a noite e minha aflição aumentou. Meus pais e os demais adultos foram à Missa do Galo na Catedral de Nossa Senhora Sant’Ana e São Sebastião. E vocês têm que dormir cedo, se não o Papai Noel não vem. Sentenciou minha mãe. Quem disse que eu conseguia pregar o olho? Queria ver o “bom velhinho” de perto, trazendo em seu saco vermelho o presente que tinha pedido naquelas lonjuras que era Manaus. Queria provar aos meus parentes incrédulos que ele existia e que não havia mentido sobre tê-lo visto tão de perto. A ansiedade da espera me fez adormecer.

Era manhã de Natal. Dei um pulo da rede para me encontrar com o meu sonho. E lá estava ela. Dentro do meu sapato, embrulhada em um papel de presente vermelho, a minha flauta, de plástico, azul, com o bico branco e tocava uma canção infantil. Eu era só sorrisos. Papai Noel havia cumprido sua promessa. Corri, deu um beijo em minha mãe, que olhava carinhosa, e saí de casa a fora pra contar e mostrar a novidade.

* Jornalista

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