A revolta dos macacos
Publicado em: 05/04/2011 às 00:00 | Atualizado em: 05/04/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Foi um susto encontrar o Guaribão no busão. Ao vê-lo, levei a ponta dos dedos da mão direita à testa; depois, ao peito; em seguida, perto do ombro esquerdo; e, por fim, ao ombro direito. E, enquanto ele não me via nem eu falava com ele, repeti o sinal da Cruz no pensamento.
Poderia evitá-lo, passar por ele e fazer de conta que não o tinha visto ou que não lembrava mais de sua figura. Afinal, 25 anos já se passaram desde o tempo que o conheci nas cabeceiras do rio Mamuru, em 1985, quando eu tomava conta do barco do meu pai. Antes de conhecê-lo, conheci primeiro suas histórias. Não havia quem não contasse as aventuras do Guaribão. Por onde andava, de porto em porto, ouvia as dele.
Pessoalmente, não havia nada de extraordinário nele. Era um sujeito de pouco mais de um metro e meio e, suponho, um ou dois anos mais velho do que eu. A diferença principal entre mim e ele é que eu era um espetinho de churrasco, e ele um “caboco” entroncado, um tronco de itaúba. No futebol, ninguém o derrubava nem tinha a habilidade que tinha para quebrar a perna dos adversários com golpes de tesoura voadora.
Mas as histórias que mais se ouviam eram as de suas caçadas. Muitos acreditavam que, na mata, ele fazia pacto com o Credo-em-Cruz, já que nunca voltava com as mãos abanando. Ouvi até dizer que era tão selvagem nas caçadas que dispensava a companhia de cachorros. Isso, porém, era um exagero. Eu mesmo testemunhei que não era assim. Na verdade, Guaribão possuía um cão chamado Quebra-Mato.
Naquele dia que o vi em ação é que percebi a razão da fama. Guaribão soltava o Quebra-Mato e, assim que ouvia o latido do parceiro, saía em disparada para acompanhar a perseguição. E não imaginem um caçador equipado, não! Ele era desprovido de tudo (usava apenas uma espingarda calibre 36, às vezes). No meio da floresta, corria descalço até acuar o animal.
Por causa disso, admirava o Guaribão. Quando chegava à cidade, por exemplo, eu propagava as aventuras selvagens. Porém, na última vez que o encontrei, antes de parar com as viagens para o Mumuru, acabei concordando com os comentários do povo de lá sobre a ligação dele com o “Coisa-Feia”.
Guaribão contou que certa vez, ao atravessar o Mamuru, no fim da tarde, observou a distância, no horizonte, algo se mexendo no meio do rio. Remou e, à medida que se aproximava da coisa, dava-se conta de que se tratava de um homem nadando. Remou, remou e, quanto mais perto ficava, mais certeza tinha de que se tratava de uma pessoa tentando vencer a água. “Seu mano, o cara nadava muito bem. Dava cada braçada”, dizia.
Certo disso, de que se tratava de alguém tentando se salvar, Guaribão relatou que acelerou ainda mais o socorro. Ao chegar perto, porém, ele percebeu que não era um homem, mas um macaco, uma enorme guariba (macaco guariba):
“Aí, seu mano, eu peguei o remo e disse: ‘Ah, tu não é gente, é?’. E dei-lhe uma cacetada que o bicho virou na hora. ‘Purra’, mas na hora que eu fui colocar o bicho no casco (canoa pequena, feita de tronco inteiro de árvore escavado), eu ia alagando. Aí, eu peguei uma corda, amarrei no pescoço dele e reboquei a guariba até a beira”.
Quando pensava que já havia acabado o relato, Guaribão prosseguiu:
“Ainda bem, seu mano, que, quando cheguei na beira, amarrei a guariba num tronco de árvore pelo pescoço, porque na hora que eu virei de costa, o bicho se levantou, ficou de pé e quis me atacar. Só não me pegou, porque a corda não deixou. Aí eu disse: ‘Tu qué, é?’. Peguei o remo e, assim que preparei a porrada, a guariba meteu as mãos na frente para se proteger”.
Antes que concluísse, perguntei se havia terminado o serviço e ele, sem o remorso que eu sentia, disse: “Claro”.
Esta semana, quando encontrei o Guaribão no ônibus, a primeira pergunta que lhe fiz foi:
– Cadê as guaribas?
E ele.
– Hum, nunca mais, parente. Depois que matei aquele macaco, toda noite os parceiros dele iam lá na minha canoa fazer cocô. Foi o jeito eu sair de lá.
*Escritor e filósofo.
