Cego é aquele que não cheira

Publicado em: 10/02/2009 às 00:00 | Atualizado em: 10/02/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*

Há muito ouço falar que quando se perde uma sensibilidade se aguça outra. É a chamada lei natural da compensação. Se não existe, passará a existir agora. É aplicada desde a coisa mais fútil à mais complexa.

A melancieira, por exemplo, em média, vive cem dias. Em compensação, produz um fruto grande e gostoso. O taperebazeiro, ao contrário, dá um fruto pequeno e azedo. Mas vive décadas.

“Viagens” à parte, prova da existência desta regra tive na véspera do último Natal. Precisava de uma toalha para cobrir a mesa improvisada da ceia. Fui à Esplanada a contragosto, em compensação conheci a dita lei.

Foi na linha 014. Embarquei no núcleo 3 da Cidade Nova, em frente ao mercadinho Akitem. Eu e minha mulher. Na parada seguinte, perto da escola Dom João, embarca o cidadão que colocaria em prática tal regra.

Antes de subir, ele pôs a ponta da bengala no primeiro degrau da escada do ônibus, tateou o bastão de um lado para o outro, colocou a guia no degrau superior, repetiu o procedimento, depois resolveu embarcar.

Ele se apoiou na porta do coletivo, dirigiu o olhar para o motorista e esticou a perna. O passo foi mais alto do que o necessário, tanto que perdeu o equilíbrio assim que o carro partiu. Alguém lhe ofereceu ajuda. Ele, porém, recusou e em seguida, encolheu a bengala do tamanho que lhe coube no bolso da calça.

Até aquele momento, imaginava que seus olhos ainda captavam alguma coisa. Mas só pude perceber o grau de sua deficiência visual quando virou a cabeça em minha direção: olho pequeno e totalmente branco que abria e fechava aceleradamente.

Era um cidadão de envergadura incomum. Sua cabeça quase roçava o teto do ônibus. O suor lustrava sua pele negra. Não aceitava ajuda de ninguém.

A expressão dele só mudou quando uma encantadora mulher entrou na viagem. Aliás, assim que ela embarcou esqueci dele. Era uma moça também alta, cabelos da cor da noite sem luar: volumoso, negro e misterioso.

Ela vestia um conjunto de roupa preta: um vestidinho de malha colado até a barriga e solto da cintura para baixo, formando uma saia. Por baixo, usava uma meia preta transparente, que moldava as coxas e as pernas até as extremidades das batatas, bordadas com renda marrom que acentuavam ainda mais sua sensualidade.

Confesso que tive vontade de continuar olhando para ela, mas eu estava ao lado de minha esposa, mais sério do que cachorro na proa da canoa.

A moça só não escapou da percepção do passageiro de olhos brancos. Assim que ela passou por trás dele, notei que virou o pescoço em sua direção. Depois, como se estivesse farejando algo, seguiu seu rastro e ficou atrás dela. Aquilo me chamou atenção, mas quando achei que ele havia ousado demais o vi esfregando o joelho nas costas da mulher.

A jovem fecha a expressão, ameaça reagir, mas o ô nibus já estava no terminal. Ela entra na fila para o desembarque, mas ele não desiste. Como um cão farejador à caça de sua presa, continua cheirando a moça até a porta do ônibus.

Minha mulher, que a esta altura já acompanhava o assédio, olhou para mim e fez um gesto com o olho e a boca em sinal de surpresa e eu comentei: “Você viu? Cego é aquele que não cheira.”

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Myrria.

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