Confidente Ultrapassado
Publicado em: 18/05/2009 às 00:00 | Atualizado em: 18/05/2009 às 00:00
Massilon de Medeiros Cursino*
Ainda me lembro do dia que te levei para meu apartamento. Parece que foi ontem, todavia, já se passaram treze anos. Eu ainda era solteiro e não tinha filhos. Tu já estavas a conviver e a dormir comigo, a sussurrar em meus ouvidos e embalar meus sonhos…
Resolvi escrever estas linhas sobre ti após ouvir de um especialista que estás ultrapassado, que devo substituir-te por um mais novo e mais potente. No entanto, ainda não vou te descartar, não! Esforçarei-me para conseguir que tenhas uma sobrevida. Seria muita ingratidão minha baldar-te assim.
Tu, que sempre estivestes ao meu lado nos bons e maus momentos. Na melancolia de ficar órfão de pai, quantas vezes chorei próximo a ti, enquanto me refrescavas. Na vida de solteiro, fostes meu grande confidente, e continuas a ser. Foste tu que literalmente criastes o clima para gerar meus filhos. Estás ali a todo momento, mas que bom que és surdo, cego e mudo. Nem tanto mudo, porém, pra minha sorte, és surdo e cego.
Mudei de cidade, de domicílio, tu vieste junto. Realizei o sonho de ter minha casa própria, depois de longos anos de serviço público, e não esqueci de ti. Já na construção da nova moradia, teu lugarzinho já havia sido reservado, afinal minha esposa e meus filhos te adoram.
Treze anos se passaram, muita coisa mudou e hoje me vem o veredicto de que estás velho e ultrapassado. Pudera, são treze anos de trabalho diuturno e nunca me cobrastes hora-extra ou adicional noturno, nem vais colocar-me na Justiça do Trabalho por isso.
Depois de tanta declaração, reconhecimento e agradecimento por tudo, sem falar da tua frescura, espero que o leitor não venha desconfiar de coisas feias, pensar besteiras. Também espero que não pensem ser um caso de aliciamento de menor, por teres apenas treze anos, embora já te taxem de velho.
Estranho, mas resolvi te homenagear meu condicionador de ar, que neste momento continua a me acompanhar e refrescar minha mente, enquanto produzo mais um artigo.
Não quero ser ingrato depois de tantos momentos, inclusive íntimos. Enquanto não chega o Split, mais moderno, silencioso, potente, e provavelmente mais econômico, é contigo que continuo a contar.
Não me resta dúvida, caro leitor, que seu ar-condicionado também é seu grande confidente. Lembre-se disso quando ele já estiver bastante depreciado e obsoleto!
*Economista, Bacharel em Direito, Pós Graduado em Gestão Pública, membro da Academia Parintinense de Letras.
