Crise e pressão
Publicado em: 15/01/2009 às 00:00 | Atualizado em: 15/01/2009 às 00:00
*Wilson Nogueira
As indústrias incentivadas do Distrito Industrial de Manaus (PIM) fecharam 2008 com um faturamento de U$$ 28,5 bilhões, 20,1% a mais que o do ano passado. Mas, mesmo assim, com argumento dos prováveis efeitos da crise mundial na ponta da língua e projeções catastróficas no pen drive, os empresários apelam por mais benesses ao Estado. Não lhes bastaram os R$ 400 milhões em renúncia fiscal do pacote anticrise estadual nem os resultados das demais medidas da União que cobrem todo o setor produtivo nacional.
O mais engraçado dessa história, que sempre se repete como farsa, é que, de uma hora para outra, o empresariado dota o Estado, por meio da retórica, de eficiência imprescindível na arrumação dos negócios arruinados pela mão invisível. Que se diga, entretanto, que a eficiência do Estado, para os capitalistas, só dura enquanto ele jorra dinheiro no buraco deixado pela eficiência de fabricar lucros irreais das companhias globais.
O argumento do analista econômico camaleônico chega a ser cansativo: “Olhem só: o Estado deve agir, comprar e vender moedas ou emprestar dinheiro barato aos borbotões para o setor privado até reequilibrar o mercado, e dele deve sair imediatamente”. Na economia sã, para esse tipo de analista, o Estado é ineficiente, preguiçoso e prejudicial. Esse fingimento nutre o velho e o novo liberalismo econômico. Fora dele não haveria solução. Novas experiências? Nem pensar!
O fantasma da crise – fruto dos efeitos reais das incertezas do mercado mundial e dos filhotes destas gerados pela mídia – é usado para emparedar governos e sociedades em escala mundial. Quem não tem medo de perder o emprego? Qual governante não se assusta com a possibilidade de instabilidade social? São questões preocupantes. Não seria prudente desdenhar da realidade. De igual modo, não se deveria tê-la como imutável, sem solução ou sem saída senão as das leis de mercado.
A crise não deve se transformar em arma de pressão do empresariado insaciável. Ela precisa, sim, ser discutida por toda sociedade, para que seus impactos sejam amortecidos em todos os setores, principalmente nos das populações mais pobres. Os balanços das indústrias incentivadas de Manaus mostram, por exemplo, que elas têm mais gorduras para queimar que os trabalhadores. Deveriam subtrair algumas gordurinhas. Afinal, o capital se reproduz em função do trabalho humano. A contrapartida social, antes de uma obrigação legal, deveria ser compreendida como um inarredável compromisso ético.
Suscitei esse tema para demonstrar que a proposta de corte no repasse, pela indústria incentivada, para o fundo que mantém a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) soa como pilhéria, caso não se trate de equívoco daqueles que formulam tamanho absurdo. Comprometer os avanços da educação superior (ensino, pesquisa e extensão) no Amazonas já seria um ato insano; recuar nessa conquista será crime imperdoável. Os governantes e a sociedade devem agir., rápido e energicamente, contra essa tentativa reacionária de barrar as conquistas do ensino público democratizado.
*Jornalista, sociólogo e escritor
