Diário de bordo

Publicado em: 29/07/2009 às 00:00 | Atualizado em: 29/07/2009 às 00:00

Wilson Nogueira*

Domingo, 26/07/2009. O Zenzão partiu do lago do Tarumã por volta das 11h, com destino a qualquer lugar tranquilão, ali pertinho, no rio Negro. Não há uma hora estimada para o retorno. Talvez lá pelo pôr-do-sol. “Se precisar, esticaremos pela noite”, avisa o comandante. Afinal, navegar é preciso. Já era assim na época do poeta Fernando Pessoa. Imagine agora, com GPS, telefone celular e rádio sintonizado na frequência de navegação da Marinha. A luz que bate no espelho d’água emite uma profusão de raios. É tão intensa que embaça a visão.

Encantado com as águas, heim? Isso mesmo! Não só pelas águas. Há vários trechos de igapó do Tarumã que ainda não foram derrubados. Outros abrigam marinas que guardam barcos de luxo ou são portos de outros empreendimentos. Na margem direita, perto do Negro, destaca-se uma torre de concreto e, perto dela, um enorme guindaste. A idéia que se tem é a de que esse monstrengo foi abandonado às pressas. Consta que ali funcionaria um hotel-cassino dos Maksoud, financiado pelo contribuinte brasileiro. A carcaça de ferro e cimento tornou-se mais um dos sinais da corrupção por ali.

O monstrengo fica para a popa do Zenzão, que agora sulca as águas negras em marcha de cruzeiro. O calor é arrefecido por lufadas de vento que entram pela proa. Zenzão conhece os banzeiros, as curvas, os portos e as praias das proximidades de Manaus. Ele mantém uma relação de respeito com a natureza. De tudo que ela lhe oferece, Zenzão só quer um lugar sossegado para os seus passageiros. Um ambiente onde todos possam contemplar e amar a natureza. Taí, pertinho de nós.

Amarramos o cabo na copa de uma árvore, na boca do Tarumazinho. Nesse local, as águas lambem as copas do igapó. Largados no piscinão, encontramos sob os nossos pés, aqui e acolá, copas de árvores. Assim, dá para conferir o quanto os rios amazônicos encheram neste ano. Os passageiros dos aviões que sobem e descem do e no aeroporto brigadeiro Eduardo Gomes extasiam-se com a visão impar dos rios e da floresta. Mal suspeitam da floresta de igapó debaixo d’água.

Dá gosto banhar-se no rio, longe das margens, protegido pelos equipamentos de bordo do Zenzão. Veio-me à cabeça, entre as braçadas, o espanto do repórter Otávio Ribeiro, o legendário Pena Branca, quando se deparou com o rio Negro. “Pô, cara, isso aqui é um piscinão, o maior do mundo”, repetia em carioquês. Pena Branca participou da equipe que fez a edição histórica da revista Realidade sobre a Amazônia, em 1972. Um feito de desbravadores. Um alerta para a necessidade de preservação da Amazônia.

O Zenzão retornou quando o sol se escondia por trás da floresta. Na despedida, acompanhados por violão sem uma das cordas, cantamos, juntamente, com alguns moradores da comunidade Livramento, a música Amazonas, de Chico da Silva: “Eu amo esses rios da selva / Nas suas restingas meus olhos passeiam/ O sangue nasce nas suas entranhas / E nos seus mistérios meus sonhos vagueiam…” Quem toca e puxa o canto é o próprio Chico, que, também, tem colocado o seu talento na defesa da Amazônia, para que outras gerações possam tomar banho na copa das árvores.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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