Em defesa da calçada
Publicado em: 13/11/2012 às 00:00 | Atualizado em: 13/11/2012 às 00:00
Wilson Nogueira*
Na noite do último sábado, na esquina da Rua Ramos Ferreira com a Rua Joaquina Nabuco, no Centro, deparamo-nos – eu, Rosário Nogueira e Ivânia Vieira – com um casal empurrado um carrinho de bebê na pista para automóveis. E a calçada? Ah! Servia de estacionamento. A cena e o cenário do qual fizemos parte diz muito dessas cidades que dão mais importância aos carros que aos seus bebês.
Imaginamos o quanto de monóxido de carbono esse pequeno cidadão deve ter aspirado ao ser colocado próximo à descarga dos carros. E os seus pais? Supomos que, por terem nascido numa sociedade de culto ao carro, até estejam indiferentes a essa guerra entre gente e máquinas por espaço na superfície da terra. Ou não! Podem ter agido em protesto à ausência da indignação dos citadinos. E o bebê? Por que usar logo um bebê? As repostas são uma incógnita.
Não se trata de uma cena incomum. Numa cidade de poucas calçadas livres, ruas engarrafadas e sinalização precária, ela se repete, a cada momento, com outros personagens. A cidade fadigada é o teatro onde os carros capturaram a alma humana, tornaram-se máquinas cheias de vontades, e agora riem dos que lhes reivindicam uma brecha de chão para caminhar, mesmo que sejam crianças, velhos ou portadores de necessidades especiais. E assim os questionamentos se seguem a exigir explicações e reparações aos traumas e perdas da dignidade do viver total. O mal estar não afeta só os seres gentes. Ensina-nos o arquiteto Oscar Niemeyer, depois de observar as estrelas através de um telescópio, que jamais devemos acreditar que o universo só existe para atender aos caprichos e às necessidades humanas.
Os sinais da degradação da vida estão por toda parte. Mas é na cidade que eles acabam naturalizados e incorporados aos valores morais, éticos e estéticos de uma sociedade esvaziada de sensibilidade e inteligibilidade para resolver os seus problemas. Em vez disso, joga-os para debaixo do tapete ou faz de conta que os resolve com medidas paliativas. A falta de calçadas ou a invasão das calçadas pelos carros é uma dessas situações que entrelaçam moradores, universidades e gestores como responsáveis pela busca da qualidade de vida no espaço publico. As correções de erros, equívocos e a nova postura diante dos desafios do presente e do futuro exigem atitudes de um novo cidadão ou de um cidadão renovado nas suas atitudes individuais e coletivas. Desarmados das suas verdades e interesses particulares, cidadãos e gestores públicos poderão construir, por meio do diálogo e saberes compartilhados, cidades mais humanas e menos máquinas.
Quando nos colocamos diante da Manaus, sem calçadas livres, com as ruas engarrafadas, com seus igarapés poluídos, sem água encanada, sem luz elétrica e sem rede de esgoto nos espantamos com tanto descaso do poder público e dos seus moradores. Quantas décadas serão necessárias para reconstruí-la? Para jogá-la no fundo do poço, a saber, falta pouco. Um novo gestor poderia iniciar suas ações de reconstrução da cidade e aprimoramento da cidadania por meio da realização de obras simples.
Que tal começar pelo saneamento da cidade pela arrumação e devolução das calçadas de uma rua, preferencialmente localizada em bairro da chamada periferia? Uns e outros moradores até resistiriam em devolvê-las, mas depois de muito diálogo – ocasião em que encontrariam um lugar para seus carros, quem sabe um estacionamento coletivo –, se convenceriam da importância dos benefícios da medida. O bom exemplo não tardaria a se disseminar por outras ruas, por outros bairros, por toda a cidade e daí por diante. Eis uma grande obra a espera de um novo gestor.
A essa altura, a humanização das cidades parece algo impossível de ser alcançado. Afinal, são muitos anos de desprezo e desrespeito à convivência urbana. Nessa desesperança se escoram os gestores públicos indolentes, intolerantes e refratários ao diálogo aberto e transparente. Os moradores da cidade devem reagir a esse tipo de postura, para que a qualquer hora do dia e da noite possam caminhar livremente pelas ruas e calçadas, sem correr o risco de acidentes ou de morte. Assim, a patética cena daquela noite de sábado só terá lugar em nossas memórias como fato que não deve se repetir nunca mais.
*O autor é jornalista.
