Ética e política: uma aula de Português
Publicado em: 18/05/2012 às 00:00 | Atualizado em: 18/05/2012 às 00:00
Darlem da Silva Monteiro*
Na preparação das aulas de acentuação, procuro sempre antecipar (ainda que mentalmente) um elenco de vocábulos com um mesmo padrão sistemático de acentuação gráfica, para não dar aquele “branco” lacunar na hora de provar os argumentos e a lógica das regrinhas gramaticais.
À guisa de exemplo, para as palavras oxítonas sempre vêm “paletó”, “guaraná” e às vezes “mané”. Para as paroxítonas… Bem, para essas a lista é bem mais esticada.
Pensando nas proparoxítonas, veio-me à mente “política”. Em seguida, por uma razão que só Freud poderia explicar, “ética”! Seria muito fácil, para qualquer um (inclusive professor de Português!), construir uma oração, na qual essas palavras se relacionem muito bem sintaticamente. Difícil é demonstrar onde, na realidade fática (e às vezes fatídica) dos alunos, elas figurem juntinhas de verdade.
Se isolar os termos, um dicionário resolve. “Política”, ciência dos fenômenos referentes ao Estado e arte de bem governar os povos. “Ética”, juízo de conduta humana relativa às faculdades morais, do ponto de vista do bem e do mal, do certo e do errado, etc. Pronto, moleza! O problema é unir essas palavras. Separadas são apenas acepção; juntas, revolução. Quem quer se meter num assunto desses, numa aula de acentuação, às 9 da noite…?
– Talvez se eu colocasse num período “política” perto de “paletó” e “guaraná”, facilitaria para eles e para mim – pensei –, pois eles já sabem que quem anda envolvido com política, usa paletó e gosta de um “guaraná”. De quebra, aprenderiam o que é “período composto” e com um verbo transitivo indireto, pois na política as coisas “transitam indiretamente”. Logo, “quem gosta” deve gostar “de alguma coisa”.
Faltaria a oxítona terminada em “e”. Onde colocar o “mané”, então? Juntinho de ética, claro! Por que não pensei nisso antes?! Onde mais poderia andar o mané nesse país senão do lado da ética? Logicamente, não vou me preocupar em explicar o que (o) “Mané” está fazendo aí. Elementar coincidência. Melhor é mostrar como é interessante que o e é aberto em ética no início e o de mané no fim, para não ter trabalho com outras discussões. E país…? Bem, o que há nesse caso é apenas um grande hiato que separa os pólos silábicos, políticos e éticos, entre paletós e manés.
*Licenciado em Letras pela Ufam, especialista em Língua Portuguesa pela Ufam, Professor de Língua Portuguesa no Ensino Público Fundamental.
