Machado de Assis: um santo remédio

Publicado em: 09/04/2011 às 00:00 | Atualizado em: 09/04/2011 às 00:00

Neuton Corrêa*

Ilustração: Myrria

Não queria me desfazer do livro, mas eu estava aperreado. Não havia me dado bem com o lanche da estrada. Foi bater e ver. Não sei se o desarranjo era da comida vencida ou se, efeito psicológico da desconfiança. Mas havia aceitado as consequências da gula apenas para provar a tão falada arepa, comida da culinária da Venezuela, para onde viajei na semana que passou.

Fui de busão e voltei de carro. E, como a viagem se demoraria um dia inteiro, resolvi me acompanhar de dois Machado de Assis, “Papéis Avulsos” e outro livro com o título “Melhores contos: Machado de Assis”.

Para começar, a viagem de ida foi interrompida à altura do km 200 da BR-174. As chuvas haviam destruído um trecho da rodovia. Resultado: quatro horas de espera para que operários e máquinas recuperassem a estrada. Adorei o problema, porque aproveitava ao máximo para ler as obras.

Essas quatro horas foram suficientes para uma descoberta que parece tola, mas que me rende até hoje, uma semana depois, a imaginação da cena. É que no conto “O Alienista”, o escritor dá uma explicação pra lá de convincente sobre a origem do sinal de positivo que a gente faz com o dedo polegar.

Conta Machado de Assis a história do Dr. Simão Bacamarte, filho nobreza do Brasil dos idos do século XIX, o maior dos médicos da época, o Alienista, como é chamado no conto, era um homem obcecado pela ciência e que resolveu construir, na vila Itaguaí, uma casa para dementes. Essa casa recebeu o nome de “Casa Verde”.

Bacamarte recolhia à Casa Verde todos aqueles que a observação científica julgasse demente. Com base nisso, pôs no hospício uma multidão: vereadores (todos), gente de outras cidades, o melhor amigo, a esposa e ele próprio acabou se internando no casarão.

Pois bem! Aí vem a explicação do sinal de positivo: num determinado período do vigor dos poderes do Alienista (ele era poderoso, segundo o conto), Bacamarte determinou o uso de um anel de prata no dedo polegar esquerdo de todo aquele que se declarasse de descendência germânica sem prova documental. Esses eram recolhidos ao hospício e, então, para mostrar que estava tudo bem com eles, exibiam o anel.

Bem, o problema, para mim, foi que na volta da viagem, antes de cruzar a fronteira, a barriga reclamou. As primeiras contrações vieram tão intolerantes que precisei aspergir três vezes as terras do comandante Chávez. Nem mais nem menos. Três vezes! E, medicado, retornei ao Brasil.

Na fronteira, porém, encontrei três enormes filas de carros e as contrações intestinais me atacaram outra vez. A primeira fila, a da guarda venezuelana, suportei com muita reza; a segunda, já no Brasil, do controle fiscal, venci com paciência de Jó. O drama maior viria na última fila: a do posto da Polícia Federal.

Essa fila não andava. A única coisa que andava era minha imaginação, tentando deixar o carro e correr atrás de uma moita. O problema é que essa mesma imaginação me advertia: eles podem achar que você está fugindo ou tentando eliminar alguma coisa, que não era exatamente aquilo que eu queria eliminar.

Ao me aproximar do ponto da abordagem, calculei: acho que será lá, exatamente lá será minha desgraça. Ora, o agente que fazia a abordagem encontrava problema em tudo, revistava tudo e só liberava o veículo depois de um sermão.

Ouvindo um dos sermões, intuí: “esse policial não vai parar nosso carro”, disse para meu primo Lucinor Júnior. E, olhando para trás, pedi que minha mulher me desse o “Papéis Avulsos”: “Traz aqui que ele vai liberar a gente”. E assim o federal nos abordou solenemente: “Os documentos do carro, senhor”, disse ele ao primo motorista.

Ato contínuo, o policial olhou para mim, que fingia ler, e bradou: “Ah, o cidadão é intelectual! Que livro é esse?” E eu não lhe disse uma palavra. Apenas virei a capa da obra. E ele prontamente decretou: “Machado de Assis! O maior escritor brasileiro! Seja lá o que vocês estejam levando, pode passar”.

E eu retruquei: O livro é seu! De lá, até Manaus não senti mais nada.

*Filósofo e escritor.

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