Maturana

Publicado em: 28/01/2009 às 00:00 | Atualizado em: 28/01/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*

Maturana previu a própria desgraça. Poderia ter evitado-a, mas, mesmo desconfiando que o fim da noite lhe seria trágico, entregou-se aos prazeres da noite e da carne.

Juan Carlos Maturana se diz um dos sobreviventes dos massacres cometidos no Peru pelos guerrilheiros do Sendero Luminoso, na década de 1980. Jura ter testemunhado o assassinato de oito jornalistas na comunidade de Uchuraccay. “Isso aconteceu dia 26 de janeiro de 1983”, diz ele, com precisão para se mostrar verdadeiro.

Maturana lembra também do ataque que naquele mesmo ano deixou 69 mortos, entre eles 20 crianças, em Santiago de Lucanamarca, na região de Ayacucho. Ao contar a tragédia travou a voz e molhou os olhos para depois falar de sua decisão de se refugiar no Brasil.

Do grupo de jovens que o acompanhou, a maioria familiares, foi um dos poucos que não quis nada com o comércio ambulante. Preferiu a estiva e a vida da zona portuária. Do sotaque espanhol, pouco lhe resta.

Fui levado a conhecê-lo, no início desta semana, por um grupo de amigos dele. Leram a história de sábado, a do Miguinho, lembram? Aquele que atrofiou a perna, atirou-se da tolda do barco em cima de dois botes de alumínio, foi esfaqueado, resistiu a tudo isso e hoje está preso.

Os colegas de Maturana acharam que ele tinha história semelhante a do Miguinho. Mas não tinha nada a ver. O Miguinho era atraído pela sorte. Maturana, não. Maturana prevê o que vai acontecer.

A vida dele lembra figuras da história das civilizações. O personagem Prometeu, por exemplo, sabia que seria punido por Zeus e mesmo assim roubou o fogo dos deuses para dar ao homem. Teve de cumprir pena de 30 mil anos de prisão em um rochedo, vendo uma águia beliscar seu fígado.

Adão também sabia que se aceitasse a maçã de Eva seria expulso do paraíso.

Maturana é assim: se ele lhe disser não faça isso, não insista.

Certa vez, estava na Praça do Relógio. Nesse dia, não bebeu nada, porque, logo cedo, teve o pressentimento de que alguma coisa lhe aconteceria naquela data. O dia passou. A noite avançava, quando foi abordado por uma mulher. Receoso, olhou para o relógio, e concluiu intimamente: “hoje não acontecerá mais nada”.

Maturana e a companheira beberam e antes que o último ônibus deixasse a estação da Matriz ela o convidou a ir para a sua casa. Ele hesita. A mulher insiste. Maturana volta a consultar seus guias e pensa: “isso não vai dar certo”. Recusa o convite, mas acaba sendo seduzido a morder a maçã.

Já no quarto da parceira, uma estância no bairro Coroado, entrega-se às volúpias da madrugada. Uma noite inesquecível! Como nada tinha lhe acontecido, achou que seus oráculos haviam cometido erro. E seguiu rindo com as paredes.

A madrugada, porém, não havia terminado. O ex-marido da mulher reaparece, perde o controle, agride o casal a cassetadas e para marcar a punição joga-o no buraco de uma fossa em construção e vigia os dois por algum tempo.

Ao perceber que o agressor não estava mais no local, Maturana literalmente sai da fossa. Furta um par de roupa da vila e espera o sol e o primeiro coletivo aparecerem. Não demora e o ônibus passa. Maturana embarca, encontra a melhor posição para cochilar, mas quando o sono chega, o carro freia bruscamente. O peruano se assusta, olha pela janela, estica a cabeça para ver o que havia acontecido e não viu nada!

Nesse momento, porém, o motorista desprende-se do cinto de segurança e caminha no corredor do articulado. Maturana ensaia uma pergunta e quando começa a falar recebe um soco na cara.

Ele se apruma para revidar, mas antes de desferir o golpe, pergunta:
– O que é isso, rapaz?
E o motorista responde:
– É para você nunca mais mexer com a mulher dos outros.

*Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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