Meu amiguinho da madrugada

Publicado em: 18/02/2011 às 00:00 | Atualizado em: 18/02/2011 às 00:00

Neuton Corrêa*

Todos os dias, encontro aquela família sentada no mesmo lugar: em dois bancos perto da porta de desembarque do 458. De longe, ela se destaca por dois detalhes: primeiro, os assentos são mais altos do que os outros, já que foram montados num sobressalto do assoalho da roda do ônibus e, segundo, porque, nos dois bancos ocupados por essa família, viajam cinco pessoas. Exatamente isso, nos dois espremidos lugares, viajam cinco pessoas.

Pai e mãe tomam conta das vagas. O pai fica com a da janela, com vista para a esquerda, e a mãe, com a do corredor. O filho mais velho, o qual suponho ter em torno de seis anos de idade porque ainda está com a dentição temporária perfeita, sem nenhuma janelinha, senta-se no colo do pai; a mais nova, de mais ou menos dois anos, geralmente, viaja atracada ao pescoço da mãe; e o do meio vem ao centro, com uma perna sobre coxa da mãe e outra, na do pai.

Imagino que eles saem muito cedo de casa para pegar o busão. Basta montar o quebra cabeça: ninguém tem vaga cativa nos coletivos. Talvez a família tenha o lugar reservado por embarcar no começo da viagem. E, como passam pela minha parada ainda sem a luz do dia, calculo que acordam antes das quatro horas da manhã.

Sim, não pode ser menos do que isso. E devem sair de casa correndo e lutando para os meninos acordarem. Você já pensou, no melhor do sono, sair do pano? Aliás, as crianças viajam todas agasalhadinhas. O mais velho, por exemplo, sempre vai de calça moletom até o tornozelo e com duas camisas, sendo uma de mangas cumpridas, com a gola apertando-lhe o pescoço.

O irmãozinho dele não é diferente. Sempre veste uma calça jeans, usa também camisa de mangas cumpridas de lã sintética e calça tênis azul que lembra as antigas congas chinesas. A menina nem se fala. Vai protegida pela roupa e pelo abraço da mãe. Os pais, não. Acho que não sente o inverno que as crianças sentem. Só os vejo de camiseta.

Quando os vi pela primeira vez há sete meses, na hora, pensei em escrever uma crônica sobre os cinco, chamando-os de “A Família Dorme”. É que na hora que embarquei, os cincos estavam de olhos fechados. Aproximei-me para observar melhor os detalhes, mas a mãe apenas fechava o olho. Os outros dormiam profundamente, enquanto, com olhar fixo e compenetrado, ela abria os olhos  para mostrar que vigiava o grupo.

Depois, na viagem seguinte, certifiquei-me de que não poderia mesmo chamá-los de Família Dorme, pois todos estavam acordados, até a menina. Pareciam haver combinados olhar para um ponto e brincar para ver quem não piscava.

Bem, mas, se fossem brincar disso, teriam que excluir logo o do meio. Ele, quando está acordado, não sossega. Ali, no lugarzinho dele, sozinho, fica fazendo caretas e mexendo com os outros (sem que a mãe perceba). Tanto que, de quando em vez, ele brinca comigo. Até lembro-me dos meus velhos tempos de bang-bang no quintal da velha Maria Preta.

Num dia desses, do colo dos pais, ele fez do dedo indicador revólver, disparando balas imaginárias na minha direção e, eu, também, com a ponta do dedo, discretamente escondido, contra-atacava. E, assim, brincamos até eu descer do ônibus e eles continuarem a viagem sabe-se lá para onde.

*Filósofo e escritor.

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