Michael Löwy critica ONGs e defende o ecossocialismo

Publicado em: 30/01/2009 às 00:00 | Atualizado em: 30/01/2009 às 00:00

O cientista social Michael Löwy, 70, disse em Manaus que as redes ambientalistas não propõem alternativas eficazes aos problemas ambientais. Segundo ele, ONGs como Greenpeace têm papel positivo, mas atacam apenas os sintomas da questão. Michael Löwy, que mora na França, está na Amazônia pela primeira vez. Na semana passada, proferiu palestras no auditório da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e esta semana está em Belém, onde participa do Fórum Social Mundial. Löwy nasceu em São Paulo, formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, em 1960. É um dos mais destacados estudioso do marxismo, com pesquisas sobre as obras de Karl Marx, Leon Trótski, Rosa Luxemburgo, Georg Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin. Ele concedeu entrevista ao jornal A CRÍTICA, no dia 21 de janeiro. O material, editado, foi publicado no domingo passado. Com autorização do jornal, o TEXTOBR publica a íntegra da entrevista que ele concedeu à jornalista Elaíze Farias.

Como o ecossocialismo articula-se com o pensamento marxista?
Ele parte da idéia de que uma ecologia que não seja socialista não enfrenta os desafios que estão colocados para a humanidade do século 21. Inversamente o socialismo que não seja ecológico está atrasado em relação aos problemas de nossa época. O ecossocialismo é o início de um processo de luta e de conscientização das pessoas. Surgiu em vários lugares ao mesmo tempo na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil. No Brasil existe uma rede brasileira bastante ativa. Ano passado foi fundada em Paris uma rede internacional. Agora vamos publicar o manifesto, que se chamará o Manifesto de Belém, no Fórum Social Mundial. Depois vamos fazer o segundo encontro ecossocialista internacional.

Quais as ações apresentadas pelo ecossocialismo?
O objetivo é reunir e associar uma espécie de osmose de difusão química entre a critica marxista do capitalismo e a análise da destruição do meio ambiente. Mostrar que as duas coisas estão relacionadas. Aquilo que Marx explica sobre a natureza do capitalismo, um sistema que só pode existir da produção ilimitada de mercadorias.

Qual o grande papel do capitalismo na destruição do planeta?
Exploração e destruição ilimitada dos recursos naturais é inerente do capitalismo. Faz parte do seu código genético. Não depende da boa e má vontade do empresário ou do banqueiro ou governante. É a lógica do sistema.

O ecossocialismo parte de qual análise sobre a nossa realidade?
Partimos da análise de que o processo de destruição do meio ambiente que está se acelerando com uma rapidez catastrófica resulta não apenas da ação humana. Porque a humanidade vive neste planeta há milhares de anos. Tem a ver com a nossa civilização industrial, capitalista, ocidental. O que está colocado na ordem do dia é uma mudança muito profunda no paradigma de civilização. Não é só mexer com as relações de propriedade, com a maneira de administrar a economia. Precisamos de um novo modelo de civilização. Uma nova maneira de produzir, de consumir, de se transportar.

O ecossocialista é uma forma de atualizar o pensamento socialista clássico?
Para nós o ecossocialismo é uma aposta. É uma possibilidade que corresponde a uma necessidade real. O Marx teve algumas intuições, mas obviamente na época dele a questão não estava colocada desta maneira. A gente parte de uma visão bastante crítica do que foi a experiência do chamado socialismo real, na União Soviética, na China, que desprezou completamente a questão ambiental. Por dois aspectos. Um é que faltou democracia. Outro é que faltou ecologia. Então, não dá para pensar o socialismo que não seja democrático.

Qual a resposta do ecossocialismo para lógica do capitalismo?
A unidade dos povos da floresta para defender a floresta contra os latifundiários, o agronegócio, as multinacionais, é um combate que vai no sentido da idéia do ecossocialista. Talvez estes movimentos não saibam disso. Mas para nós é importante mostrar que essa luta dos povos da floresta interessa ao movimento.

O senhor faz alguma crítica às atuações de redes ambientalistas?
Por um lado, devemos reconhecer a utilidade dos movimentos ecológicos. Mesmo ongs como Greenpeace tem papel positivo. Mas atacam os sintomas do problema, não vão à raiz. As alternativas que eles propõem são ineficazes. Apelam à boa vontade do indivíduo para não jogar plástico na rua. Não somos contra isso. Mas não está à altura do desafio. Sobretudo agora que está se colocando o problema do aquecimento global, que é de todos os desastres ecológicos o mais grave que está se apresentando.

Qual a relação entre os movimentos sociais e o ecossocialismo?
Nosso objetivo é conscientizar os movimentos sociais, movimentos de esquerda e movimento ecológico. Juntar a crítica do capitalismo com a questão ecológica. Não somos nós que vamos resolver o problema. Estamos simplesmente a serviço dos movimentos, tentando trazer uma proposta. É uma utopia, mas não só uma idéia. É algo que se traduz em prática. Uma reivindicação que a gente levanta é desenvolver grandes redes de transportes públicos gratuito. Isso reduz o transporte de carros, responsáveis pelo efeito estufa. A gente está a fim de coisas concretas.

Quais os movimentos sociais do Brasil com os quais o ecossocialismo mais se identifica?
Os movimentos mais próximos no Brasil e na América Latina com quem já há um diálogo são os camponeses e indígenas. Faz parte da experiência deles lutar contra a expansão do latifúndio. Mas não é só ter um projeto de uma outra sociedade, de um outra civilização. Precisamos agir e agora. Não dá para esperar. Precisamos de ações para defender um pedaço da floresta, criar uma rede de cooperativas de agricultura biológica, de impor o transporte público no lugar de transporte de cidades.

O que o senhor acha de atitudes individuais, aparentemente banais, como sempre fechar torneira? O senhor as considera ingênuas?
Acho importante a pessoa fechar a torneira. Mas é preciso tomar consciência que isso não basta. Porque enquanto isso uma empresa de produção está desperdiçando água em quantidade astronômica. Não basta fechar a torneira. É preciso enfrentar a questão global do sistema. As pessoas devem fechar as torneiras, mas tomar consciência de que é um problema político. Não depende da boa vontade de uns e outros, mas de uma mudança estrutural no funcionamento da sociedade.

Qual a informação ou tem contato com os movimentos sociais da Amazônia?
Vim aqui para aprender. É a primeira vez que venho para a Amazônia. Os paulistas não dão atenção para a Amazônia. O Fórum Social Mundial vai ser um grande momento de escutar. Estou muito interessado sobre o que os movimentos indígenas vão mostrar. Os indígenas têm um relacionamento com natureza diferente da civilização capitalista moderna.

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