Musashi, um livro para compreender o mundo como Universo

Wilson Nogueira (texto e fotos)

 

Os três volumes da edição brasileira mais recente de Musashi (Estação Liberdade, 2017), de Eiji Yoshikawa, imergem na cultura japonesa dos senhores feudais do final do século 16 e começo do século 17, cujo exercício e controle do poder era determinado pela habilidade dos samurais.

É nesse ambiente que viveu, possivelmente entre 1584 e 1645, o legendário Myamoto Musashi, o espadachim que, pelo caminho do zen-budismo, alcançou a perfeição técnica e espiritual de lutar com duas espadas, o estilo Niten Ichi, depois de passar por todas as provações que se estenderam da terra ao céu.

Yoshikawa (1892-1962) ajudou a tornar Musashi uma personagem viva do folclore japonês, porque sua obra, primeiramente publicada em 10.013 episódios, no jornal Asahi Shimbun, entre 1935 e 1939, conquistou seguidas edições em livros, inspirou HQs, teatro, cinema, séries de TV etc.

Os 10.013 episódios foram distribuídos por Yoshikawa em sete livros: A terra, A água, O fogo, O vento; O Céu, As duas forças e a Harmonia final.

A edição à qual me refiro está em três volumes: A terra, A água e O fogo; O vento e O céu; As duas forças e a Harmonia final. São 1800 páginas de uma leitura surpreendente, tensa, instigante e reflexiva.

Dessa viagem ao Japão dos samurais, destaquei trechos que se relacionam, principalmente, com entrelaçamento da formação técnica, espiritual e humanística do verdadeiro guerreiro que se tornou Musashi, a partir do momento em que se descobre capaz de romper com o ser bruto, selvagem e sanguinário que habita o seu corpo e sua alma.

Pulsam nessa litura enigmas que não se revelarão sem um profundo conhecimento das filosofias orientais, como o budismo e o xintoísmo. Mas os percalços, longe de serem problema, são mais uma motivação para a descoberta do próprio leitor como  personagem do próprio livro.

O começo deste livro é um waza-ari na alma do leitor que, depois de passar por uma vertigem, descobre-se em um labirinto de cenas, cenários, diálogos, ações, sensações e tramas a se desenrolarem de um novelo de várias pontas e cores.

Ódio, amor, compaixão, beleza, intolerância, crueldade e trapaças são ingredientes que revelam – do começo ao fim – as virtudes e os defeitos humanos.

Takezo, 17 anos, – assim é chamado Musashi – acorda, atônito, na região de Sekigahara, palco da batalha final(1600) entre a coalizão do Oriente e a do Ocidente e, depois de alguns passos cambaleantes, reencontra, no mesmo cenário, o seu amigo e colega de combate Matahachi. Ambos renascem do lodaçal de sangue e cadáveres putrefatos, resultados da luta pelo poder entre donos das terras japonesas.

É curioso imaginar que Takezo e Matahachi partiram em busca de reconhecimento e fama. Mas, ao terminar a guerra, como soldados derrotados e perseguidos, haviam eles perdido o rumo perante “a realidade sombria”. Takezo e Matarachi, restos de guerra, caminham juntos até as forças do universo separá-los, para depois de uma longa jornada juntá-los humanizados.

Assim como a maioria dos guerreiros após o fim de uma guerra fracassada, Musashi, perseguido, tornou-se um bandoleiro, um ser temível e impiedoso que aterroriza até mesmo a Vila em que nascera. Havia nele, todavia, o ímpeto pelo aprimoramento da sua habilidade com a espada. Ele se descobre nesse caminho aos 13 anos, quando realiza o seu primeiro duelo.

Matarachi, por sua vez, assentara-se em uma vida acomodada, oportunista e trapaceira, sem maiores preocupações com o próprio destino. Assim, ele passa a maior parte do tempo do romance na companhia de Okoo, a viúva que, juntamente com a enteada Akimi    acolheu a ele e a Takezo em estado de convalescência.

É a partir de Takezo e Matarachi que surgem as personagens e os mais variados contextos do cotidiano e da história japonesa, marcada ainda por tensões entre os feudos, embora essa época esteja em processo de unificação pelo vitorioso reino Tokugawa.

Ao retornar a Myamoto, sua terra natal, para visitar a irmã Ogin (seus pais já estavam mortos), Takezo escapa das armadilhas dos seus perseguidores, mata-os e foge para a floresta. A mãe de Matarachi, a velha Osugi, se transforma em persistente caçadora da cabeça de Takezo, por considerá-lo responsável pela ida do filho a Sekigahara. Ogin suspeita que o filho esteja morto.

O monge zen-budista Takuan dispõe-se a capturar Takezo, desde que o fugitivo seja punido a partir das suas leis – “[…] as minhas leis são mais humanas que as outras”.

É o que acontece: o monge entra na floresta acompanhado de Otsu, órfã que vive no templo Shippoji, eximia tocadora de flauta, ex-noiva de Matahachi. Ela acabara de ser comunicada desistência do noivo, por meio de carta que lhe foi enviada por Okoo.

Musashi no mundo do Ukiyo-E. Ed. Esp./Brasil

O terrível Takezo comove-me com a música dela e se entrega ao monge – “[…] dizia-se que a música tinha o poder de comover até mesmo o diabo”, disse Takuan sobre a moral do poder da música em uma lenda japonesa.

O monge, depois de tenso diálogo com os aldeões que clamavam sangue, entaniçou Takezo e o dependurou nos galhos de um centro centenário, para que em quatro ou cinco dias os urubus lhe arrancassem os olhos. Takezo é salvo por Otsu, que se apaixona por ele.

Antes desse episódio, Takezo ouvira uma prelação do monge Takuan sobre “o homem verdadeiro, o verdadeiro bravo, aquele que teme o que deve ser temido, poupa e resguarda a vida – esta perola preciosa – e procura morrer por causa digna”.

O monge reconhece a força física e a firmeza de caráter herdada por Takezo ao vir ao mundo – ele filho de Shinmen Munisai, de linhagem guerreira –, mas, adverte-o de que até aquele momento aprendera apenas o lado sombrio da arte da guerra, e não cultivou a sabedoria e a virtude.

Sugere então ao jovem guerreiro que, caso vença o castigo, se enverede por estes dois caminhos: “[…]Aperfeiçoar-se no duplo caminho das letras e das armas – conhece a expressão. Mas que significa “duplo caminho”? Sem dúvida não significa que dois são os caminhos a serem percorridos em busca do aperfeiçoamento; significa, isto sim, que os dois caminhos das letras e das armas, estão juntos e perfazem um único caminho. Compreendeu, Takezo?”.

Essa, ao meu ver, é a passagem que Yosokawa nos remete à compreensão do pensamento que forja o jeito de viver – por que não, de morrer – do povo japonês. A pergunta de Takezo pode muito bem se dirigir ao leitor: “Compreendeu, leitor?”. É pelo “caminho do meio” e não pelo modo maniqueísta do bem ou do mal que a vida – entre as quais, as dos seres humanos – caminha e se encaminha cotidianamente.

Mas Takezo ainda é apenas uma ser afetado pelo ensinamento do monge e não transformado. Nas palavras de Takuan, o jovem guerreiro “é um pequeno tigre de presas afiadas que ainda não foi totalmente domesticado”. Takuan recaptura Takezo na cidade de Himeji, onde pretendia libertar a sua irmã Ogin, presa acusada de protegê-lo.

É com o senhor de Himiji, Ikeda Terumasa, que Takuan decide a pena de Takezo: passar três anos preso em um quarto escuro da torre do castelo desse clã, aliado dos vitoriosos de Sekighara. O aposento estava abarrotado de livros: “Havia desde literatura japonesa e chinesa até tratados zen e história do Japão”.

Ao cerrar a porta da prisão, Takuan disse ao jovem prisioneiro: “– Leia tudo o que lhe for possível […] considere-se dentro do ventre materno, preparando-se para o nascimento. Aos olhos da carne, este recinto nada mais é que um escuro quarto selado. No entanto, olhe com atenção e medite: a sala está repleta de luz, luz que todos os tipos de sábios da China e do Japão ofereceram à civilização. Tanto poderá viver enclausurado num escuro quarto selado, ou passar os dias numa sala cheia de luz – a escolha é sua e cabe ao seu espírito decidir”.

Musashi no mundo do Ukiyo-E. Ed. Esp./Brasil

 

Ao sair da prisão, onde se abeberou, entre outras leituras, nas estratégias de guerra de Sun-tzu e na filosofia de Confúcio, Takezo é rebatizado por Terumasa, com a aquiescência de Takuan, com um novo nome: Myamoto Musashi.

Sua trajetória, a partir desse momento, é marcada por uma vida nômade, maltrapilha, percorrendo as terras japonesas, ora recolhido em templos budistas, nas montanhas ou nas cidades em busca de aperfeiçoamento técnico, espiritual e humanista. Além do recolhimento espiritual, Musashi visita academias de estilos reconhecidas no país.

A lado humano de Musashi pode ser simbolizado pela aceitação da companhia dos jovens Joutaro e Iori, os quais, em momentos distintos, aprendem com ele arte da espada.

O primeiro estava abandonado pelos pais e o segundo era órfão. São esses os momentos que tornam singular a vida de um samurai andarilho em busca do caminho verdadeiro da espada.

Os duelos que lhe renderam fama imediata foram os realizados com os membros da academia Yoshioka, de Kyoto. Musashi, em ocasiões distintas, foi derrotando um por um dos mais graduados da Yoshioka, entre eles, os herdeiros diretos de Yshioka Kenpo, o fundador da academia.

Nos duelos, sua habilidade era espantosa, tanto no modo de surpreender os adversários em ação quanto na capacidade de sumir sob olhos deles. Vale ressaltar que o duelo é um ritual do contexto da vida do guerreiro: um gesto honroso, pelo qual vida e morte se encontram no mesmo ponto.

Nessas lutas havia um fator preponderante para ele: a conquista do verdadeiro caminho da espada: o estado zen. “[…] a diferença (entre um cientista militar e um espadachim) está no modo de perceber as coisas. De um lado existe uma ciência militar baseada no raciocínio lógico, e do outro, o caminho da espada, essencialmente espiritual.

A ciência militar espera que determinada provocação produza determinada resposta. Já o caminho da espada é um estado de espírito que possibilita detectar a provocação antes mesmo que ela seja percebida por olhos ou pele, e a evitar a área de perigo”.

Musashi entendia, também, que os caminhos da espada e da ciência de governar, em seus respectivos estágios mais evoluídos, também fazem parte do mesmo espírito. Ele mesmo transformou a planície de Kanto, um lamaçal, em área agriculturável, quando os seus próprios moradores sequer imaginavam esse feito.

Musashi no mundo do Ukiyo-E. Ed. Esp./Brasil

O momento crucial para Musashi alcançar o mais elevado nível de conhecimento se dá por meio do monge Gudo, de quem cobrava explicações sobre uma possível razão para ainda não ter conquistado estado de iluminação. Musashi queria ser aceito como seu seguidor, igual o amigo Matahachi, que agora havia se decidido pela vida religiosa. Mas Gudo parecia desprezá-lo.

Aconselhador por Matahachi, Musashi persiste em seguir o monge. Assim, em um certo momento, o religioso pressiona um bastão sobre a terra e corre em torno dele, formando um círculo, e continuou a sua caminhada, sem dirigir uma palavra a Musashi, que se pôs a perguntar: – Um círculo, para quê?

Neste trecho encontra-se a chave de toda a busca de Musashi:

“Por mais que o contemplasse, o círculo era apenas um círculo. Interminável, inquebrantável, sem extremidades, sem hesitações, era um círculo. Ampliando-o infinitamente, era a própria representação do mundo. Diminuindo-o radicalmente, ali estava ele, Musashi, em seu centro.

Com súbito e rigoroso movimento, extraiu a espada com a mão direita e a estendeu literalmente: a sombra compôs no chão a letra “o” do silabário hatakana, mas o mundo continuava um círculo, rígido e inquebrável. Se ele e o mundo eram uma única identidade, a mesma lógica poderia ser aplicada com relação ao próprio corpo. E nesse caso o que mudara de forma era apenas a sombra projetada no chão.

– É apenas uma sombra! – descobriu Musashi. A sombra não era ele próprio.

A muralha com a qual se chocava no decorrer da sua carreira também era uma sombra, a sobra do seu espírito perdido em dúvidas.

Com um kiai, trespassou o espaço acima da cabeça com a espada.

A própria sombra empunhando agora também a espada curta na mão esquerda projetou-se na terra, compondo uma vez mais um formato diferente. O mundo, porém, não mudara de forma. Duas espadas eram uma – e as duas um círculo.

– Ah!…– exclamou.”

Musashi, a partir desse momento, é um ser transformado porque compreende que seu corpo, alma e ações são partes e todo do mesmo processo de conhecimento e reconhecimento do mundo. E assim ele parte para o seu duelo final com Kojiro, o qual reconhecia como o espadachim mais preparado pela enfrentá-lo.

E quanto ao contexto histórico do Japão da época, o desenrolar e desfecho do romance, melhor mesmo é conferi-los numa leitura prazerosa. Deixe-se levar por essa viagem.