Nós e a rua
Publicado em: 17/08/2011 às 00:00 | Atualizado em: 17/08/2011 às 00:00
Ivânia Vieira*
Somos parte de uma população à qual não foi dado o direito de vivenciar as calçadas da cidade onde moramos. Temos arremedos de espaços hipoteticamente destinados aos pedestres. As calçadas da cidade são conquistas a serem realizadas e parece distante o dia de brindarmos a esse acontecimento, pois, cada vez mais o lugar destinado às andanças é ocupado por outros arranjos grosseiros, invasivos, violentos.
Calçada como dimensão de espaço público tornou-se extensão do privado. Os efeitos dessa cultura de negação de direitos e da não con-vivência se espalham reforçando o código da brutalidade que reforça uma feição de Manaus.
É tão forte a ação dessa regra que hoje um contingente de moradores da cidade experimenta desconfiança e medo ao pisar na faixa de pedestre (agora em vermelho e branco).
A normalidade desse ato em outras cidades não se aplica por aqui. Ontem, no início da tarde, na avenida André Araújo, um grupo de pedestres experimentava literalmente a faixa, tentava colocar os pés nela, para fazer a travessia, e, ao mesmo tempo, recuava diante de carros e de motoristas impacientes, aliás ameaçadores.
Houve um momento, após a espera pela chance de correr e alcançar a outra margem da rua, que o grupo – eu era parte dele – avançou os pés no território vermelho e branco, entre a surpresa e o susto, viu os carros parando, uns plenamente, outros em ‘estado de guerra’, para as pessoas passarem. Parecia um sonho, desse que dura segundos.
De qualquer forma, aconteceu. Nesse tempo fugaz, descobrimos o quanto nossa dignidade foi atingida, machucada: somente em 2011 estamos colocando os pés nas faixas, como estrangeiros acuados em nosso próprio lugar, tentando adivinhar a reação do motorista que, por meio do vidro fumê, nos olha e parece se divertir com a nossa agonia. Somos parte de uma população cujo direito de atravessar a rua não está consagrado.
*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.
