O adestrador de homem

Publicado em: 13/09/2011 às 00:00 | Atualizado em: 13/09/2011 às 00:00

Neuton Corrêa*

Pelas passadas em ritmo de ordem unida, com os joelhos elevando-se à altura da cintura, peito estufado e com o nariz empinado, o adestrador descia a Avenida das Torres, perto do conjunto Boas Novas. Reconheci-o de longe, tanto pela altura (ele deve ter uns dois metros de envergadura) quanto pelos passos de soldado em desfile marcial de 7 de Setembro. Mas outro detalhe denunciava que era ele: o cachorro ao seu lado, também desfilando.

Enquanto meu ônibus não passava, detive-me a observar o quanto homem e animal executavam movimentos que pareciam combinados e/ou muito bem treinados. Era a primeira vez que os via pela nova avenida. Não usavam o passeio de concreto destinado a pedestres, onde muita gente caminha e corre para queimar gorduras ou manter o corpo em harmonia com a vaidade e o espírito.

Os dois andavam entre árvores recém-plantadas na via, parando de quando em vez, assim como faziam quando passeavam na frente de casa, a poucos metros dali.

À medida que adestrador e adestrado se aproximavam do ponto de ônibus onde eu estava, avaliava a evolução do treinamento deles. Sim, eu tinha como avaliá-los. É que a primeira vez que observei o adestramento, o cão, um pastor-alemão mestiço de negros pelos brilhosos do trato dado pelo criador, ainda agia como um adolescente teimoso e desobediente. Na ocasião, o treinador tentava mantê-lo ao seu lado, mas, curioso, o animal só dava atenção aos cães que se agitavam e latiam dentro dos quintais da vizinhança e do Fidel, meu vira-lata (Não é implicância com o líder comunista, não. É que meu cachorro, nos primeiros meses de vida, mantinha o focinho com uma rala barba, como a do cubano).

Aquelas primeiras aulas se davam na rua da minha casa, a rua Pintassilgo, nome que pouca gente sabe pronunciar quando me perguntam o endereço:

– Como senhor?

E eu respondo, soletrando:

– Pin-tas-sil-go.

E eu até sei o vai sair:

– Pinta Silva?

Deixa pra lá. Vamos voltar para o adestramento. Pois bem, o tempo se passou e um ano depois, com o animal já adulto e o tratador cada vez mais careca e ainda mais barbudo, os efeitos da repetição davam resposta. De esquina em esquina, os dois paravam, o cachorro se sentava e, sem a ordem do adestrador, estendia a pata direita para o homem, para, em troca, ganhar alguns grãos de ração.

Aquilo, para mim, traduzia-se em aulas práticas de Psicologia do famoso condicionamento operante, em que o animal (ou o homem) condiciona ou modela o seu comportamento a partir de uma série de estímulos e respostas.

Meses depois, notei outra marmota que, talvez, nem o criador percebia. É que, quando chegavam à esquina da rua, o animal repetia os mesmos movimentos de seu dono, olhando para um lado e para o outro. Até pareciam estar sincronizados.

Mas, agora, na Avenida das Torres, outro detalhe que me fez deixar o ônibus passar, atrasar a chegada ao trabalho, para poder confirmar minhas desconfianças. É que descobri que os movimentos não são mais puxados pelo homem, mas pelo animal. Sim, agora, quem dá as patas é o adestrador, já que o cão, quando para, só estende as mãos para o treinador depois que ele se ajoelha.

Fiquei até intrigado em querer saber quem obedece a quem.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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