O terrorista
Publicado em: 19/05/2012 às 00:00 | Atualizado em: 19/05/2012 às 00:00
Neuton Corrêa*
Alguma coisa deve ter traumatizado o Juliano Petro Velho. À noite, quando já está recolhido, qualquer coisa o assusta, até mesmo o sopro de uma brisa fina na janela de seu quarto o faz tremer. Mas isso não tem sido tão ruim em sua vida. Graças a esse problema salvou seu casamento em uma aguda crise no relacionamento.
Nessa época, ele ainda morava perto de casa e, há alguns dias, estava em crise com a esposa, Katyane. Ah, preciso fazer esse registro antes de seguir a história. Os dois se conheceram na infância; na pré-adolescência, começaram a namorar; aos 17 anos, foram morar juntos; e, aos 30, casaram-se.
Eles não se falavam há dias e, naquela noite, as coisas atingiram o limite. O Petro Velho chegou meia-noite em casa, para o tudo ou nada: xingou e foi xingado; ameaçou e foi ameaçado; tentou seduzir, mas dona Katy não cedeu. Ele, então, estufando o peito e engrossando a voz, decretou: “Se for assim, não fala mais comigo”. E dormiu.
Mas, lá pelas tantas da madrugada, observando o relógio rodar sem conseguir dormir, Katyane ouviu movimentos no quintal e percebeu que a fechadura da porta da casa estava sendo forçada. Naquele instante, ainda lembrando a briga, hesitou em avisar o Petro Velho, mas depois deu o braço a torcer e, tremendo, cutucou o parceiro, sussurrando:
– Juliano! Juliano!
E ele, achando que ela havia cedido aos seus encantos, quis se valorizar:
– O que é? Agora quem não quer sou eu!
Ela imediatamente sussurrou:
– Tem gente querendo entrar em casa.
E ele, num abrupto reflexo, abraçou a parceira de cama e, como o milagre da transformação da água para vinho, afinou a voz e sussurrou longamente:
– Onnnnndee!!!!
Katyane não se segurou e deu uma gargalhada que deve ter assustado o ladrão.
Conto essa história porque esta semana encontrei o Juliano, que agora é vereador em Parintins. Assim que a gente se encontrou, ele contou:
“Rapaz, pois não é que o ladrão entrou em casa, de novo, e, por pouco, não virei um assassino? A gente tinha acabado de chegar da festa, umas duas horas da madrugada. Quando estava deitado, ouvi um barulho no quintal. A Katyane, também, e me olhou no mesmo instante, assustada.
Meu compadre, eu disse: ‘É ladrão e está rondando a casa. É um bandido perigoso e já matou os cachorros’. Eu falei isso porque nem o Fiuk nem a Miúcha latiam. O ladrão rodeava e casa: dava três passos e batia no piso. Aí, eu pensei: ‘esse cara quer me assustar e depois me matar. Mas eu não pensei duas vezes, peguei o telefone e liguei pra Polícia, mas não completava a chamada. Aí, eu comecei a tremer nas pernas.
Como o bandido continuava rondando a casa, assustando a gente, eu disse: ’Katyane, traz o Luan (filho) pra cá e vamos trancar o quarto‘. E assim fizemos. Empurramos mesa, cama, cômoda, guarda-roupa. Tudo! E disse: ‘aqui ele não entra!’
Compadre, aí deu três horas, deu quatro, deu quatro e meia… Liguei pro meus amigos e ninguém atendia. E o ladrão continuava rondando a casa. Andava e batia no chão.
Quando deu cinco e meia, eu decidi: Katiane, eu vou matar esse terrorista. Combinei com ela: na hora que ele passar por aqui (eles já estavam na cozinha), tu abre a porta que eu vou lá dar uma facada nele. E assim, combinamos. Dei um beijo de despedida na minha velha, porque eu poderia me dar mal. Mas quando ele passou dando pegadas pela porta, e que a minha velha abriu a porta, eu não tive coragem e pensei: ‘deixa eu primeiro olhar pela brecha da janela pra medir o tamanho desse bandido’.
Quando olhei, meu compadre, com o dia claro, dei de cara com o bandido perigoso: Pois não é que era um tracajá que me deram no interior, que andava e batia o peito no piso, mas fazia isso parece gente?”
Meu amigo Petro Velho não teve coragem de matar o bicho de casco e mandou soltar o quelônio no lago do Macurany.
*Filósofo e escritor.
