O vendedor de filtro
Publicado em: 23/07/2009 às 00:00 | Atualizado em: 23/07/2009 às 00:00
A fila do 300 se agitava como uma sucuri pronta para o ataque. Já estava grande, mas aos poucos crescia ainda mais. Eram passageiros apressados esticando o rabo da cobra grande, que aparece todo dia no Terminal da Cidade Nova (T3). Eu estava a 30 metros da cabeça da grande serpente.
Nada, porém, destoava do cenário comum do começo do dia naquele terminal. O incomum foi a presença de uma Kombi velha. Ela não estava no T3. Ficou do lado de fora. Tão logo chegou, o motorista ligou um equipamento de som montado no capô do carro e o testou, com alguns toques de dedo sobre o microfone.
Assim que vi o palco montado, sai da fila. Percebi que não fui o único. Um cidadão que carregava uma pasta preta também esperou o show. Era um rapaz que calçava sapatos bico fino, vestia calça e camisa de mangas compridas e engasgava o pescoço com uma gravata listrada.
Alguns minutos depois, mais dois veículos se juntaram à Kombi. Eram dois carros de luxo. A curiosidade aumentou. Do primeiro, desceu um homem de terno e gravata. Levantou o cós da calça, tomou o microfone, testou o equipamento, olhou para a fila do 300 e fez sinal de positivo na direção do terceiro veículo.
A esta altura, amigos do busão, eu também já estava agoniado para saber que tipo de espetáculo sairia de lá, quando, finalmente, surge a estrela da festa. Reconheci na hora.
Era um vereador: pele clara, louro e óculos fundo de garrafa. Sua fala nem parecia discurso político. Comunicava-se como se estivesse fazendo uma homília.
Lembro-me, ainda muito bem, do primeiro tema da pregação daquele vereador. Começou atacando o transporte coletivo de Manaus. Repetiu várias vezes que era preciso quebrar a caixa preta da planilha. E, olhando para os ônibus que saíram superlotados, dizia que aquilo era uma humilhação.
Ao tocar em outro assunto, o problema da falta d’água na Zona Norte da cidade, notei que os olhos do meu parceiro de terminal que segurava a pasta, brilharam. Tudo que o vereador falava, ele concordava. Tanto que o flagrei, várias vezes, erguendo o braço para socar o ar, em gesto de protesto.
O parlamentar também ficou animado com a empolgação do rapaz. Ao terminar seu pronunciamento, dirigiu-se ao público e fez uma provocação: “Quem quiser fazer uso da palavra, poder vir que o microfone é democrático”. Mal fechou a boca, o moço da pasta levantou o braço e gritou: “Eu quero falar”.
Esperei para ver. Afinal, há décadas a Zona Norte sofre com falta d’água. Assim que tomou a palavra, discursou: “É verdade, o vereador tem razão. Temos que resolver o problema da água e eu tenho a solução”.
Em seguida, ele pediu ao vereador que segurasse o microfone. Nessa hora, a plateia estava curiosa. De repente, ele abre a pasta, tira um objeto branco, levanta-o e diz: “Esta é a solução. É o Multi 1.500. Mais do que um filtro. É um processador de água. Vou atender aqui mesmo no terminal, na fila do 300”.
Desapontado, o parlamentar desmontou o palanque.
*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia.
Ilustração: Homahs

