O visitante das Castanheiras

Publicado em: 13/06/2011 às 00:00 | Atualizado em: 13/06/2011 às 00:00

 

Massilon de Medeiros Cursino*

Nas caminhadas de uma campanha política acontecem causos e fatos memoráveis. Na última, para deputado estadual, Tony Medeiros sentiu na pele o que é um eleitor que enfrenta e questiona o candidato.

Com parcos recursos financeiros e apelando para o corpo a corpo, Tony mapeou a cidade e decidiu que faria caminhada em todos os bairros de Parintins. Iniciaria pelo bairro mais extremo da parte de baixo da Ilha.  Identificou que seria o bairro da Castanheira, o primeiro que se esforçaria em visitar casa a casa.

Saiu da beira do rio subindo o pequeno e aconchegante bairro. Saudou alguns moradores, cumprimentou amigos, entrou em casas e acenou para os mais distantes. De repente, um senhor que estava num bar de esquina ingerindo algumas doses de bebida alcoólica se dirigiu ao candidato. Ao perceber, só de ver a pose do homem marchando em sua direção, que o cidadão vinha decidido a afrontá-lo, Tony se antecipou e estendeu a mão em sua direção. Em resposta, o morador embebedado franziu as sobrancelhas, olhou-o sério e o retribuiu o aperto de mão de forma um tanto quanto fria, disparando em cheio: – É assim mesmo, agora, época de eleição, visitam nosso Bairro!

Tony fez de conta que não ouviu e continuou saudando os moradores.

O homem o seguiu e continuou: – Agora o senhor vem por aqui. Eu nunca lhe vi por essas bandas antes.

Com discrição, Tony respondeu: – Eu sempre venho por aqui…

E o homem insistia: – Como? Eu nunca lhe vi aqui no bairro da “Castanheira”. Agora aparece, pega na mão de um, de outro… Eu só lhe via na TV tirando versos, e às vezes até frescando com meu boi…

Aquilo estava incomodando Tony que tinha uma carta na manga, mas não queria se comprometer com a resposta.

O homem, sentindo que estava ganhando terreno continuou: – E aí candidato visitante, vai sumir de novo? Me diga se não é verdade, tu nunca botaste o pé aqui, nem como assombração…

Tony já envergonhado e sentindo que os outros moradores começavam a prestar atenção no cidadão embriagado, disparou: – O Senhor insiste em dizer que nunca me viu por aqui, né? Ta bom, o senhor pode até não ter me visto, mas eu sempre venho no “Castanheira” sim. Tenho até uma filha aqui no Bairro, ela mora naquela outra rua.

O bêbado olhou de canto de olho, com um olhar irônico e com um sorriso discreto diz: – Então me desculpe! Tá explicado… Assim fica difícil realmente lhe ver por aqui!

*Economista e escritor.

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