Taperebá e Carnaval
Publicado em: 09/03/2011 às 00:00 | Atualizado em: 09/03/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Nas últimas semanas, quase todos os dias, na calçada da Avenida das Torres, na metade do caminho entre minha casa e a parada de ônibus, sinto vontade de rir, quando vejo a frondosa árvore de folhas miúdas, tronco graúdo e rugoso a lançar seus frutos amarelos e de cheiro que chega a adormecer os dentes.
Sim, a árvore fica na metade do caminho, nem mais nem menos. Sei disso, com exatidão, com a precisão de Fernando Pessoa, porque tenho o costume de contar os passos que dou em rotas frequentes. E nesse trajeto, que faço todos os dias, de manhã, de tarde e de noite, empreendo 400 passos simples, o que significa dizer que são 240 metros entre minha casa e meu encontro com o busão, já que cada passo que dou corresponde a 60 centímetros.
Explicado o espaço, vamos retornar à vontade de rir. E, para não dizer que fico só na vontade, um dia, quando não havia ninguém na rua (nesse trajeto), caí na gargalhada, imaginando a cena no velório do pai do Francisco, o mais novo de uma família de dezoito filhos.
Aliás, agora, escrevendo esta passagem, lembrei-me que poderia rir mais, ali naquele ponto, se tivesse recordado também o Monta (Na infância, era Monte ou Montanha), lembram? Sei que não, mas farei um flash back, para os que não leram a história do Monta possam saber do que estou falando.
Bem… O Monta foi escalado pelas irmãs para resgatar o pai que estava caído na calçada da Igreja de São José, onde uma multidão participava de uma celebração. Monta não perdeu tempo. Foi decidido a levar o pai para casa. Ao chegar lá e falar da vergonha que a família sentia, o velho respondeu: “Até tu, Monta? Agora que tu tá bonito, quer me dar lição de moral”. E Monta, feliz com o “bonito”, olhou para o cenário onde o pai estava e disse:
– O que é “icho” (assim mesmo: icho)?
E o pai:
– Corote, cachaça, pinga… Não conhece?
Monta respondeu que sim, olhou para uma sacola ao lado da garrafa e insistiu:
– E icho aí?
E o pai, prontamente.
– ‘Teperebá’.
Monta, então, desistiu da missão e falou:
– Me dê logo uma ‘doge’ aí.
Monta voltou para casa, mas carregado pelo Pai.
Se tivesse lembrado essa história, teria rido mais na metade do caminho. Acontece que a história mais fresquinha que tem passado pela minha cabeça é a do Francisco, cujo pai morreu há exatamente um ano. Não há como esquecer a data, porque o velho, de noventa e poucos anos de idade, morreu no início do inverno chuvoso amazônico, em pleno tempo de taperebá.
O problema do Francisco foi justamente o taperebá. O pai dele, na semana que morreu, chamou todos os filhos para pedir perdão, dar conselhos. Fazer os últimos ajustes de contas. Conseguiu falar com todos, menos com o Francisco, que, naquele tempo, não saía debaixo do taperebazeiro da rua da casa dele.
Mas, convencido pelos irmãos, Francisco se afastou um pouco da árvore para dar adeus ao pai, que insistia em dizer que só descansaria depois que visse e falasse com o Chiquinho, como ele o chamava. E assim aconteceu:
– Chiquinho, meu filho, quero que você atenda o último pedido que lhe faço: “Pare de beber”.
E Francisco não teve dúvida:
– Não, papai, não agora. O errado é o senhor que achou de querer morrer no tempo do taperebá e do Carnaval.
*Filósofo e escritor.
