Um ano de Busão

Publicado em: 26/09/2009 às 00:00 | Atualizado em: 26/09/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*

Hoje o Sol passou por aqui, acordou a passarinhada, beijou uma flor amarela de ipê do Parque Samaúma e saiu radiante, mais radiante do que costuma ser. Afinal, ele não encontrou mais o Marcos Victor perambulando, pedindo um pedaço de pão e um pouquinho de café da vizinhança.

Pensei que o Sol ficaria triste. Ele já estava acostumado com o Victor. Era o Victor quem o acordava. Em casa, chegavam quase juntos, ele e o Sol. Eu era o terceiro do encontro. Ia para frente de casa para pegar o jornal e lá estava meu pequeno vizinho com os primeiros fachos de luz no rosto. Depois que eu entrava, os dois saíam juntos sabe-se lá para onde.

Vocês talvez não estejam lembrados do Marcos Victor. Talvez também estas letras sejam as últimas que dedico a ele. Trata-se de meu vizinho, meu pequeno vizinho. Hoje, tem seis anos. Foi abandonado pela mãe em uma boca de fumo quando ainda estava no terceiro ano de vida. Aos cinco, mostrava conhecer todos os códigos da casa.

Contei a história dele pela primeira vez, aqui nesta coluna, no último dia 4 de abril. Não agüentava vê-lo sair casa a casa em busca de comida. Nem tinha mais coração para tanto susto em ver os carros freando perto de seu corpinho para não atropelá-lo. Não encontrou nenhum amparo, a não ser os bochichos dos vizinhos.

Quase três meses depois, na festa de São João da Mãe Emília, tive outra notícia do Victor. Ele estava internado. As primeiras notícias davam conta de que ele havia sido molestado por um adulto que frequentava a bocada. Contei novamente a história, publicada no último dia 27 de junho.

Sabe, aquele dia marcou em mim a história do busão. A ilustração do Myrria não me saía da cabeça. Toda vez que olhava para o menino lembrava da fogueira apagada e das bandeirinhas chorando a falta das peraltices dele na festa.

Essa história, senhores, chegou aos ouvidos das autoridades que cuidam dos Direitos da Infância e da Juventude. Por causa das providências que tomaram, amigos do busão, ele nunca mais teve que sair de madrugada para mendigar. Aliás, nem sei por onde ele anda. Mas tenho a certeza que está protegido, está estudando e finalmente começando a fazer amizades com pessoas de sua idade.

Sinto saudade dele porque não o encontro mais. O Sol, também, dele terá muitas lembranças dos encontros que tínhamos quase todas as manhãs, debaixo do jambeiro. Mas, certamente, estará muito feliz em ver seu amiguinho sonhando o sonho que nunca sonhou.

Hoje, que completamos um ano desse encontro de todos os sábados, e lá se vão 52 crônicas, compartilho, com esta prestação de conta, a alegria de poder me encontrar com vocês todas as semanas.

*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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