Verso desconcertante na noite do Caprichoso
Aldenor Ferreira discute os limites da rivalidade entre Caprichoso e Garantido após verso declamado, na noite de sábado na Arena da Amazônia, em Manaus, associar simbolicamente o Garantido à criminalidade.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 31/05/2026 às 07:00 | Atualizado em: 31/05/2026 às 13:34
A rivalidade entre Caprichoso e Garantido faz parte da alma do Festival de Parintins. No entanto, um verso desconcertante, declamado na Arena da Amazônia, chamou atenção durante a noite de sábado ao associar simbolicamente o Garantido e sua torcida à criminalidade..
É fato que os Amos do Boi existem justamente para provocar, desafiar e ironizar o adversário. Isso pertence à tradição popular do espetáculo. No entanto, uma coisa é a provocação folclórica. Outra completamente diferente é associar o rival à criminalidade. Nesse contexto, ontem, durante a sua apresentação na Arena da Amazônia, em Manaus, o Amo do Boi Caprichoso declamou o seguinte verso:
Atenção povo presente,
Atenção gente festeira,
Fiquem bastante espertos,
Olhem não marquem bobeira,
Cuidado com os seus pertences, cordão, relógio, pulseira,
Senão vem o “Garampino” e leva tua carteira.
Versos não são o problema
O problema do verso não está na rivalidade entre bois. O problema está no tipo de associação construída. Quando “Garampino”, expressão usada de forma pejorativa contra o Garantido, aparece associado ao roubo de carteira e demais pertences, o discurso ultrapassa o campo da brincadeira e entra no terreno da estigmatização simbólica e da associação preconceituosa com a criminalidade.
Além disso, a frase “cuidado com os seus pertences” ativa um imaginário muito conhecido nas grandes cidades brasileiras: o medo de furtos e assaltos. Portanto, o verso transforma simbolicamente o adversário em suspeito.
Isso é grave porque o alvo não é apenas um item do boi contrário. O verso atinge simbolicamente a instituição e a torcida do Garantido como um todo.
O verso desconcertante na Arena da Amazônia não gerou repercussão apenas pela rivalidade entre bois, mas principalmente pela associação simbólica entre o adversário e a criminalidade.
Considerações finais
O Festival de Parintins cresceu justamente porque conseguiu transformar disputa em arte, música e espetáculo. Por isso, a rivalidade precisa possuir limites mínimos. Chamar o adversário de fraco ou derrotado faz parte do jogo cênico. Entretanto, associar o rival à figura do batedor de carteira produz outra dimensão de discurso.
Além disso, existe uma contradição evidente. Os bois defendem constantemente respeito, diversidade, pluralidade e combate às discriminações. Portanto, não faz sentido normalizar versos que estigmatizam coletivamente o adversário.
Provocar faz parte do Festival. Preconceito não pode fazer parte dele.
O autor é sociólogo*.
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.
