“Sentimos muito”: notas sobre a violência burocrática institucional

Ilka Mota reflete sobre a violência burocrática e como as universidades desumanizam trabalhadores(as) ao reduzir trajetórias e vidas a simples processos administrativos.

Violência burocrática

Por Ilka Mota*

Publicado em: 14/06/2026 às 13:38 | Atualizado em: 14/06/2026 às 13:38

Há algo de profundamente kafkiano na administração pública quando ela deixa de administrar pessoas para administrar fluxos administrativos. Dez anos de trabalho em uma ‘pequena-grande instituição’. Não foram dez ofícios protocolados, dez memorandos, dez números de processos. Foram dez anos de vida convertidos em aulas, reuniões, orientações, comissões, trabalho e permanência.

Dez anos construindo vínculos em uma instituição que, ao final, comunicou com a voz tecnicamente afável das engrenagens: “sentimos muito”, como quem desse a previsão do tempo – enquanto a servidora seguia/segue, discretamente, enfrentando a própria tempestade.

O “sentimos muito” burocrático talvez seja uma das frases mais cruéis da modernidade administrativa líquida (adaptação da obra de Zygmunt Bauman). Ele não consola; absolve. Serve apenas para lavar as mãos de quem o pronuncia. É a linguagem perfeita do funcionalismo desumanizado: lamenta sem sofrer, reconhece sem agir, assiste sem responsabilidade.

Há sempre um colegiado, uma norma, uma limitação procedimental, uma impossibilidade técnica – e, atrás do brilho pálido e engordurado das telas dos computadores, dos formulários eletrônicos e dos fluxos digitais, desaparece o ser humano concreto. A responsabilidade dissolve-se na estrutura, fragmenta-se entre instâncias e ninguém é capaz de responder verdadeiramente pelo sofrimento produzido.

A máquina burocrática

Kafka, mais do que ninguém, compreenderia bem a cena: a professora transformada em processo; a vida reduzida a um fluxo administrativo; o sofrimento convertido em matéria protocolar. Não importa a história construída, a dedicação oferecida, as raízes criadas em outro estado.

A máquina não reconhece afetos, apenas competências regimentais. O indivíduo comparece diante dela como quem bate à porta de um castelo inatingível: recebe explicações e respostas educadamente técnicas.

A humanidade, porém, resiste nos gestos discretos de amizade, nos ombros oferecidos sem cálculo, nos telefonemas afetuosos, na empatia silenciosa daqueles que ainda enxergam pessoas onde a instituição enxerga processos. Outros, porém, dispersam-se ao primeiro sinal de turbulência, fugidios como pequenos animais surpreendidos pela luz, sempre em busca de um canto onde a responsabilidade não os alcance.

Talvez Marx reconhecesse aí outra forma extrema de alienação: quando o trabalhador já não pertence sequer à própria trajetória que construiu, tornando-se apenas força funcional descartável dentro da engrenagem institucional.

Ou seja, uma década inteira de trabalho vivo, acumulada em experiências, vínculos e saberes, é convertida em dado administrativo. O que teve valor durante dez anos deixa de tê-lo num estalo, no instante em que já não atende às exigências da engrenagem burocrática.

Vida em protocolo

Em “O homem do subsolo”, Dostoiévski bem retratou aquilo que Marx e Balzac condensam com precisão cruel e nua: a história repete-se – e, sob a máquina enferrujada da administração, a tragédia humana reaparece como farsa burocrática.

A instituição escuta (ou finge escutar), “compreende”, “lamenta”, mas permanece imóvel. E talvez seja essa a forma mais sofisticada de violência burocrática: não o ataque direto, nem a brutalidade explícita, mas a indiferença polida no email, no áudio, no corredor.

A recusa revestida de formalidade, o abandono pronunciado em voz baixa e técnica por pequenos administradores de semblante cordial – essas e esses bons moços da engrenagem, que terceirizam a crueldade ao protocolo enquanto preservam intacta a própria aparência de sensatez e humanidade.

A violência burocrática raramente grita: ela costuma vestir a máscara da boa e do bom moço, falar baixo, citar regulamentos e abandonar pessoas com impecável educação, escondendo a sua crueldade sob a elegância técnica do vocabulário administrativo.  

Alienação institucional

O indivíduo então apre(e)nde sua posição exata no mecanismo: não é sujeito, não é história, não é vida concreta. É apenas um entrave processual entre atas, ofícios, competências e deliberações.

Em uma versão burocrática de Tempos Modernos, ele não é engolido por máquinas de aço, mas por fluxos digitais, despachos automáticos, publicações oficiais, cumprimento de decisão, protocolos sem rosto. E quanto mais humana é sua dor, mais inadequada ela parece ao ambiente administrativo, porque repartições toleram números com mais facilidade do que tragédias.

E talvez Drummond acrescentasse o silêncio mineral das instituições. O mesmo silêncio das repartições onde o destino de alguém cabe em uma ata, em um ofício, em uma decisão judicial.

Como intuía Max Weber, a burocracia alcança sua forma mais perfeita justamente quando já não necessita compreender vidas – basta-lhe administrar papéis enquanto a vida humana se dissolve, discretamente, entre carimbos, protocolos, assinaturas, formalidades impecáveis e cumprimentos judiciais.

Crueldade normalizada

A lógica administrativa contemporânea frequentemente transforma prudência em omissão e neutralidade em covardia. Os personagens administrativos “entendem a situação”, “lamentam profundamente”, mas permanecem imóveis, porque agir implicaria assumir o risco moral de reconhecer que normas existem para servir pessoas – e não pessoas para servir normas.

A lição gramsciana talvez esteja justamente aqui: a máquina revela seu talento mais refinado ao fabricar normalidade. A violência burocrática alcança sua forma mais eficaz quando deixa de parecer violência. Fala a língua da técnica, cita regulamentos e produz sofrimento sem jamais precisar reconhecer a própria face.

No fim, sobre a professora: desalojada não apenas geograficamente, mas simbolicamente. Expulsa da condição de sujeito para ocupar o lugar de inconveniente administrativo. E a instituição, tão eficiente em preservar ritos, torna-se incapaz de preservar aquilo que deveria justificar sua própria existência: a dignidade humana.

Quando uma organização já não consegue distinguir um processo de uma pessoa, talvez não seja apenas a servidora que tenha sido deslocada – desvinculada funcionalmente. Talvez seja a própria instituição, ela mesma, que tenha se afastado de sua razão de ser.

O sujeito deslocado

Talvez o texto que se apresenta aqui padeça da mesma inutilidade que descreve: uma tentativa de apresentar a espessura de uma vida a instâncias treinadas para reconhecer apenas a espessura dos autos. Em certas repartições do espírito, narrar uma tragédia humana equivale a bater à porta do Castelo e receber apenas um protocolo. As palavras chegam como vida; retornam como documentação, despacho feito, processo julgado.   

A professora já não pertence à instituição: foi removida dos sistemas e das listagens com a serenidade mecânica reservada às operações bem-sucedidas. E, como se a desvinculação formal ainda deixasse alguma margem à memória ou à possibilidade de retorno, as Moiras cogitam cortar  o último fio institucional que ainda a liga à casa: seu espaço de docência e especialidade.

Não bastaria removê-la dos registros; seria preciso tornar sua ausência estrutural. O restante fica a cargo das pequenas ratazanas administrativas. Tudo funciona. Tudo está em ordem. E talvez resida aí o aspecto mais inquietante desse admirável mundo administrativo: a realidade humana desaparece dos formulários muito antes de desaparecer da vida.

Transformou-se em processo. Despacho proferido. Arquive-se. 

A autora é doutora em Linguística Aplicada*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.