Fux se alonga na defesa de Bolsonaro e desafia paciência da população
Em voto extenso, ministro ignora provas centrais e o plano “Punhal Verde-Amarelo”, sustenta nulidade total e provoca inquietação no STF, na PGR e na população.
Da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 10/09/2025 às 19:04 | Atualizado em: 10/09/2025 às 19:04
O ministro Luiz Fux protagonizou nesta terça-feira (10 de setembro) um dos momentos mais controversos do julgamento do núcleo central da tentativa de golpe de Bolsonaro e seus aliados contra o Brasil.
Ao longo de um voto interminável, que começou na manhã e entrou pela noite (até 19h45, de Brasília, ele sinalizava que ainda ia se demorar), o que, para muitos, era uma atitude deliberada de se prolongar, Fux defendeu a nulidade integral da ação, alegando “incompetência absoluta” do Supremo Tribunal Federal (STF) e pedindo a remessa do processo à primeira instância.
O tom adotado e o tempo gastado na exposição, contrastando com a objetividade de outros ministros, chamaram atenção de comentaristas e parlamentares.
Para críticos, Fux se esforçou não apenas para fundamentar tecnicamente sua tese, mas para dar relevância simbólica a uma divergência que contraria a maioria formada até aqui no plenário.
Silêncio sobre o “Punhal Verde-Amarelo”
Se a estratégia de Fux foi se aprofundar em questões processuais, a consequência foi ignorar completamente provas e documentos centrais apresentados por Alexandre de Moraes, relator do caso. Entre eles, o plano “Punhal Verde-Amarelo”, que previa ataques violentos e até assassinatos de autoridades, incluindo o próprio Moraes.
Essa omissão foi lida como sinal de que o ministro escolheu limitar o campo de discussão ao foro e ao procedimento, evitando reforçar a gravidade do conteúdo investigado pela Polícia Federal e sustentado pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
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Um ministro em contradição
O próprio argumento central de Fux gerou desconforto interno.
Ele recorreu ao precedente da anulação dos processos da Lava Jato contra o ex-presidente Lula, decidida pelo STF em 2021, para sustentar que o julgamento do plano golpista de Bolsonaro deveria ocorrer fora do Supremo.
No entanto, três anos atrás ele votou contra aquela mesma tese, o que abriu espaço para acusações de incoerência e uso seletivo da jurisprudência.
Climão no STF e PGR
Dentro do Supremo, o voto foi acompanhado com atenção e silêncio pelos demais membros da primeira turma. Até porque Fux foi apressado em dizer que não queria interrupção ainda durante a apresentação do relatório do processo.
Expressões contidas e anotações discretas indicam que os colegas preparam contrapontos sólidos para rebater a tese.
A PGR, por sua vez, acompanha de perto, já que o entendimento de Fux desdenha de todo o acervo probatório reunido pela acusação.
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Distância da opinião pública
O contraste mais evidente, no entanto, está fora do Supremo.
Pesquisas recentes mostram que a maioria da população condena os atos golpistas, rejeita anistia aos envolvidos e reconhece a gravidade da tentativa de ruptura institucional. Por exemplo:
- • Atlas/Intel (2024): 74% discordam das manifestações e 93% condenam os ataques às sedes dos três poderes.
- • Datafolha (2024): 63% rejeitam anistia e 65% classificam os atos como vandalismo grave.
- • Quaest (2025): 49% acreditam que Bolsonaro participou do planejamento do golpe, incluindo o 8 de Janeiro.
Ao ignorar esses sinais e sustentar uma nulidade total que esvaziaria o processo, Fux se alinha mais à narrativa de defesa de Bolsonaro e seus golpistas do que à expectativa popular de condenação.
Estratégia calculada
O voto de Luiz Fux parece mais do que uma divergência técnica: soa como estratégia calculada para enfraquecer o trabalho do relator e abrir brechas jurídicas que possam beneficiar Bolsonaro e outros réus.
Ao se alongar exageradamente, omitir provas centrais e adotar uma interpretação já rejeitada por si mesmo no passado, o ministro sinaliza que, no julgamento dos golpistas, o embate não é apenas jurídico, mas também de narrativa e de poder.
Foto: Rosinei Coutinho/STF
