Energia em alta tensão: o Linhão de Tucuruí e o futuro estratégico do Amazonas

A transição para fontes renováveis altera a matriz elétrica global

Por Fabiano Bó

Publicado em: 28/09/2025 às 19:26 | Atualizado em: 28/09/2025 às 19:32

O mundo atravessa uma nova fase em que a segurança energética se tornou central para a competitividade econômica, a estabilidade social e a geopolítica. A transição para fontes renováveis altera a matriz elétrica global: a Agência Internacional de Energia projeta que 46% da eletricidade mundial será gerada por fontes limpas até 2030, mas combustíveis fósseis ainda sustentam a maior parte do consumo primário.

Esse desequilíbrio evidencia a tensão entre metas climáticas, demanda crescente e necessidade de fornecimento confiável, colocando a infraestrutura de transmissão como elemento decisivo para transformar geração em acesso seguro e contínuo. Crises recentes, como a guerra na Ucrânia, demonstraram que instabilidades globais impactam diretamente a confiabilidade energética de países dependentes de importações ou de fluxos concentrados de energia.

No Brasil, a matriz elétrica é majoritariamente renovável, com quase 90% da geração proveniente de hidrelétricas, eólica e solar. No entanto, o país enfrenta desafios estruturais: centros de consumo distantes das hidrelétricas, gargalos logísticos, eventos climáticos extremos e uma rede de transmissão desigual tornam a disponibilidade de energia vulnerável.

O Amazonas, historicamente isolado do Sistema Interligado Nacional (SIN), exemplifica essas fragilidades. Até 2013, Manaus e municípios vizinhos dependiam de termelétricas movidas a óleo diesel, de alto custo e baixa eficiência, sustentadas por subsídios federais que pressionavam as contas públicas e impactavam a competitividade industrial. O consumo residencial, por sua vez, era marcado por instabilidade e tarifas elevadas, refletindo a dificuldade de transportar energia de forma confiável para regiões remotas.

A inauguração do Linhão de Tucuruí em 2013 representou um divisor de águas para o Amazonas. A interligação de Manaus ao SIN, operada pela Transnorte Energia (TNE), subsidiária da Eletrobras com 49% de participação, permitiu o acesso à energia firme proveniente de hidrelétricas do Norte, reduzindo drasticamente a dependência de geração térmica local, promovendo estabilidade e viabilizando tarifas mais competitivas.

O Polo Industrial de Manaus, principal motor da economia estadual, passou a contar com previsibilidade de fornecimento, fator determinante para investimentos e manutenção da produção em larga escala. Ainda assim, o avanço estrutural não eliminou desafios: picos de consumo superiores a 1.600 megawatts, motivados pelo crescimento urbano e pelo maior demanda por refrigeração, pressionam a rede, exigindo investimentos em subestações, modernização de linhas e programas de eficiência energética. Ao mesmo tempo, a complexidade regulatória permanece, com ajustes tarifários e mecanismos de subsídio que equilibram interesses de consumidores, distribuidores e poder público.

No interior do Amazonas, a integração ao Sistema Interligado Nacional ainda é restrita. Além de Manaus, apenas Parintins, Itacoatiara, Iranduba e Manacapuru contam com fornecimento conectado à rede nacional. A imensa maioria dos municípios permanece em sistemas isolados movidos a óleo diesel, realidade que eleva custos, restringe investimentos e compromete a competitividade regional.

Esse modelo impacta diretamente setores produtivos, como a indústria do açaí, que enfrenta barreiras para expandir sua capacidade de beneficiamento e agregar valor, perdendo competitividade local devido à ausência de um suprimento energético estável e de longo prazo.

O impacto do Linhão transcende a engenharia, representando uma base estratégica para o desenvolvimento regional. A interligação ampliou a confiabilidade, abrindo espaço para novas iniciativas de diversificação energética, incluindo integração de energia solar, biomassa e armazenamento local, além de digitalização da rede para reduzir perdas e otimizar o fornecimento.

A interligação de Roraima ao SIN consolidou 100% das capitais brasileiras conectadas ao sistema, transformando Boa Vista em parâmetro de uma rede energética firme e contínua.

O Linhão de Manaus, operado pela Transnorte Energia (TNE), subsidiária da Eletrobras com 49% de participação, é mais do que infraestrutura: é um instrumento de soberania econômica e social, capaz de consolidar o estado como polo industrial competitivo e sustentável.

Além disso, a Eletroterm Norte investiu em subestações no Amazonas, incluindo a Subestação Lechuga, a SE Jorge Teixeira e a UHE Balbina, fortalecendo a operação e a transmissão de energia regional. Assim como domínio de recursos estratégicos, como terras raras, energia limpa e eficiência tecnológica é geopolítico, controlar e gerir a energia elétrica demanda um setor fortalecido e capacidade de gestão contínua.

A interligação foi apenas o início; transformar esse consumo em plataforma de desenvolvimento regional exige planejamento, execução e um olhar integrado sobre infraestrutura em segurança energética real para toda a população do Amazonas.

O autor é coronel da PM-AM, secretário de Estado da Casa Militar

Foto: PAC/divulgação