Os Estados Unidos não são donos do planeta

É hora de superar essa mentalidade colonial que insiste em tratar países latino-americanos como quintal de Washington

Os Estados Unidos não são donos do planeta

Por Plínio César Coelho*

Publicado em: 29/09/2025 às 13:40 | Atualizado em: 29/09/2025 às 13:40

A recente decisão do governo Trump de revogar o visto do presidente colombiano Gustavo Petro revela, mais uma vez, a face autoritária da política externa norte-americana.

Um chefe de Estado, democraticamente eleito, é punido simplesmente por ter feito um discurso contrário à política dos Estados Unidos de apoio irrestrito a Benjamin Netanyahu e à ofensiva israelense em Gaza.

Trata-se de uma medida que beira a arbitrariedade. Se a crítica política de Petro é considerada motivo para cassação de visto, o que resta da liberdade de expressão e do respeito à soberania dos povos?

A Colômbia não é um protetorado de Washington. É um país soberano, cujo presidente tem o direito — e até o dever — de se posicionar diante de guerras, genocídios e injustiças internacionais.

Entretanto, o mesmo Trump que não tolera críticas a suas alianças no Oriente Médio é o primeiro a enviar embaixadores para atacar governos e instituições em outros países.

O caso do Brasil é emblemático: diplomatas norte-americanos chegaram a criticar o governo Lula e o Supremo Tribunal Federal, em clara intromissão nos assuntos internos nacionais.

Soma-se a isso o uso crescente da Lei Magnitsky, aplicada de maneira política contra ministros do STF e até contra familiares, em uma tentativa de constranger e enfraquecer instituições nacionais.

Essa postura não pode ser normalizada. Não cabe aos Estados Unidos decidir quais discursos são aceitáveis de presidentes latino-americanos, africanos, asiáticos ou europeus.

O planeta já não tolera mais a lógica da Guerra Fria, na qual Washington e Moscou disputavam zonas de influência.

A realidade atual é multipolar, e qualquer tentativa de reduzir a política internacional a um monólogo de Trump — ou de qualquer outro líder — é anacrônica e perigosa.

A hipocrisia é flagrante: quando interessa, Washington alega defender a liberdade de expressão como valor universal; quando a crítica se volta contra seus interesses geopolíticos, a resposta é punição, sanção, cassação de vistos, listas negras e campanhas de difamação. Isso mostra que não se trata de valores, mas de conveniência política.

O planeta precisa deixar claro que os Estados Unidos não são donos de tudo.

A autodeterminação dos povos e o respeito à soberania nacional devem prevalecer sobre o intervencionismo seletivo e sobre a arrogância imperial.

O discurso de Gustavo Petro, concorde-se ou não com ele, é parte legítima do debate internacional. Revogar um visto por divergência política é um ato de fraqueza diplomática, não de força.

É hora de superar essa mentalidade colonial que insiste em tratar países latino-americanos como quintal de Washington.

Nem a Colômbia, nem o Brasil, nem qualquer outro país devem aceitar passivamente a imposição de um “policial global” que se julga autorizado a punir, censurar e intervir sempre que seus interesses são questionados.

*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

Foto: The World Factbook/CIA