Emocionado, ministro Luís Barroso se despede do STF

"Decisão longamente amadurecida que nada tem a ver com qualquer fato da conjuntura atual", disse ele, com os olhos em lágrimas

Luiz Barroso Emocionado

Neuton Corrêa, do BNC Amazonas

Publicado em: 09/10/2025 às 18:24 | Atualizado em: 09/10/2025 às 18:27

O ministro Luís Roberto Barroso anunciou agora há pouco sua aposentadoria da Corte do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele se aposenta após participar do julgamento que tornou Jair Bolsonaro o primeiro ex-presidente brasileiro condenado por tentativa golpe de Estado.

Barroso, ex-presidente da Casa, ainda fica no Tribunal, segundo ele, até semana que vem, quando devolverá processos que estão em vistas sobre sua mesa.

Mas o ministro tomou uma decisão pouco comum, de se aposentar antes do tempo que ainda poderia ficar no cargo. Ele foi nomeado em 2013 pela ex-presidente Dilma Rousseff. Pelas regras atuais, poderia ficar no STF mais oito anos.

“Sinto que agora é hora de seguir outros rumos. Nem sequer os tenho bem definidos, mas não tenho qualquer apego ao poder e gostaria de viver um pouco mais da vida que me resta”, disse ele, no discurso que fez no fim da tarde de hoje, na última sessão plenária dele no Supremo.

Luís Barroso, durante sessão desta quinta-feira, dia 9, do STF

Barroso comentou que já havia tratado do assunto com o presidente da República há cerca de dois anos. Ele também rechaçou que sua decisão tenha relação com a conjuntura atual do país.

“Essa é a última sessão plenária de que participo. Decisão longamente amadurecida que nada tem a ver com qualquer fato da conjuntura atual. Há cerca de dois anos comuniquei ao presidente da República essa possível intenção. Fico no tribunal mais alguns dias da próxima semana para devolver alguns pedidos de vista e encerrar as pendências.

Trajetória

O então advogado constitucionalista e procurador do Estado do Rio de Janeiro tomou posse em 26 de junho de 2013. Ele substituiu o ministro Ayres Britto. Ao longo de sua trajetória, Barroso foi relator de ações de grande impacto social. Como presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), atuou para aproximar o Judiciário da sociedade, divulgar informações e decisões em linguagem simples e aumentar a eficiência do Tribunal.

Nas últimas viagens que fez como presidente do STF, em junho, Barroso foi ao Festival Folclórico de Parintins. Na Ilha, ele assistiu à primeira noite de disputa entre Garantido e Caprichoso.

Causas e missões

Em defesa das liberdades e dos direitos fundamentais, ocorrem casos como a autorização do transporte gratuito no segundo turno das eleições presidenciais de 2023 e a suspensão de despejos e desocupações em áreas urbanas e rurais durante a pandemia de covid-19. Ele ainda foi nomeado redator do acórdão que recebeu a violação massiva de direitos no sistema prisional brasileiro. Relatou o processo sobre a omissão da União em alocar recursos do Fundo Nacional de Mudança do Clima (Fundo Clima).

Também foi relator das ações em que a Corte acompanhou a compatibilidade da Convenção da Haia de 1980 com a Constituição Federal. Dessa forma, permitiu a possibilidade de retorno imediato de crianças e adolescentes ao exterior em casos com apelos de violência doméstica. Outro processo relevante foi o recurso em que o STF definindo que a liberdade religiosa pode exigir o custeio, pelo poder público, de tratamento de saúde diferenciado.

A partir do voto conjunto de Barroso e Gilmar Mendes, o STF teve restrições para a concessão judicial de medicamentos registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas não incorporados ao SUS, independentemente do custo. Após o voto de Barroso, o Plenário também fixou o entendimento de que os planos de saúde devem autorizar tratamentos não previstos na lista da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), desde que atendam a todos os critérios técnicos definidos pelo Tribunal.

Mensalão e Covid

Entre os primeiros casos de destaque que dependem ao chegar ao STF estão as execuções penais dos condenados na AP 470 (Mensalão).

Barroso presidiu ainda o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no período de maio de 2020 a fevereiro de 2022, durante a pandemia de covid-19.

Na última sessão plenária à frente da Presidência, em 25 de setembro, o ministro afirmou que a vida lhe deu a vitória de servir ao país como ministro do Supremo e, nos últimos dois anos, como presidente, sem outro interesse ou motivação que não fosse “fazer o certo, o justo e o legítimo, procurando construir um país melhor e maior”.

História

Natural de Vassouras (RJ), Luís Roberto Barroso é formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde é professor titular de Direito Constitucional. Tem mestrado pela Universidade de Yale (EUA), doutorado pela Uerj e pós-doutorado pela Universidade de Harvard (EUA). Na vida acadêmica, lecionou como professor visitante nas universidades de Poitiers (França), Breslávia (Polônia) e Brasília (UnB).

Como advogado, participou de grandes julgamentos no STF, entre eles a defesa da Lei de Biossegurança, o reconhecimento das uniões homoafetivas e a autorização de interrupção da gestação em caso de feto anencéfalo.

Foto: Reprodução/YouTube/CNN