Não compro mais a camisa do meu time

Em seu artigo deste sábado, Aldenor Ferreira escreve protesto contra as bets que expõem suas marcas nas camisas dos times brasileiros

Não compro mais camisa do meu tipo/ Arte: Gilmal

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 25/10/2025 às 00:00 | Atualizado em: 25/10/2025 às 08:37

Sou torcedor do São Paulo Futebol Clube desde menino. Já são quatro décadas de paixão pelo “clube da fé”. Guardo camisas antigas, algumas com patrocínios que fizeram história, outras com o tecido já gasto pelo tempo. Mas as novas, com o nome estampado de uma bet no peito, não entrarão mais no meu guarda-roupa.

É um voto pessoal, talvez solitário. Mas carregado de convicção: não quero vestir a marca de um negócio que tem arruinado famílias brasileiras e normalizado o vício em nome do entretenimento.

As casas de apostas – as chamadas bets – tornaram-se onipresentes no futebol brasileiro. As marcas estão nos intervalos das transmissões, nas placas de campo, nas camisas dos clubes e até nas falas de jogadores e comentaristas.

Só a Betano, operada pela Kaizen Gaming Brasil, patrocina ao menos dez clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. O universo cinzento das apostas, operando à margem da legalidade, tornou-se um setor bilionário, agora legitimado por políticas públicas complacentes e por uma sociedade que naturaliza o vício desde que ele renda lucro.

Fenômeno global

E o fenômeno é global. As bets estão espalhadas pelo mundo. Elas patrocinam não apenas clubes de futebol, mas também equipes e competições de basquete, vôlei, automobilismo, tênis e até e-sports. Criaram um império do azar com linguagem jovem, estética tecnológica e promessas de ganhos fáceis. 

No Brasil, as principais plataformas são a Betano e a Sportingbet. Estas dominam o mercado de apostas on-line e transformaram o esporte em um gigantesco balcão de palpites travestidos de entretenimento.

Não sou contra o patrocínio no futebol. Sempre usei as camisas do São Paulo com o nome de alguma empresa estampada no peito. Sei que os clubes sempre dependeram do apoio de empresas e instituições. O problema não está no apoio, mas na origem do dinheiro que sustenta esses acordos.

O patrocínio é bem-vindo quando vem de negócios que ajudam a desenvolver o país, que geram empregos lícitos, que pagam impostos de forma transparente e que contribuem para a economia real. O que as bets oferecem é o oposto disso: um capital especulativo, sem lastro produtivo, que estimula o vício e drena recursos das famílias para fora do país.

Pagam poucos impostos 

E o pior: embora o marco regulatório brasileiro fixe uma alíquota de 12% sobre a Receita Bruta de Jogos (Gross Gaming Revenue), isto é, o total arrecadado pelas plataformas de apostas menos o valor pago em prêmios, a base de dados dessas empresas continua opaca, dificultando o controle sobre o que, de fato, é recolhido e revertido à sociedade. 

Persistem sérias dúvidas sobre a efetividade da arrecadação e a transparência das operações das casas de apostas no Brasil. Enquanto isso, o trabalhador comum segue pagando tributos altíssimos sobre consumo, renda e serviços. É um escárnio tributário com o selo da legalidade. 

O Estado fecha os olhos para o enriquecimento fácil de poucos e transfere o custo social para milhões que perdem dinheiro, tempo e dignidade. Isso tudo justamente no ambiente de maior prazer e felicidade de grande parte dos brasileiros: o ambiente do futebol.

A aposta esportiva é a nova “droga socialmente aceita”. Tem o mesmo mecanismo da dependência química: promessa de prazer imediato, perda progressiva do controle e destruição silenciosa da vida cotidiana. O que muda é o disfarce. Em vez do beco escuro, o banner colorido; em vez da vergonha, o aplauso.

Pesos diferentes para práticas semelhantes

Nas redes sociais e em todas as camadas da sociedade, multiplicam-se os relatos de jovens endividados, profissionais que perderam o salário inteiro em poucos cliques e famílias desfeitas por um vício que se disfarça de passatempo. 

O drama é coletivo, mas tratado com indiferença por quem deveria proteger o cidadão. E é justamente aí que se revela a hipocrisia. O Estado brasileiro aplica pesos diferentes a práticas semelhantes. 

As apostas digitais são celebradas, legalizadas e tributadas; já o jogo do bicho continua sendo criminalizado e perseguido. Não se trata de defender a liberação do jogo do bicho, mas de denunciar o duplo padrão moral e econômico que distingue o “jogo do tigrinho” e das bets, do “jogo do bicho” apenas pelo tamanho dos interesses envolvidos. Ambas são, em essência, formas de jogo de azar. No entanto, uma é reprimida nas esquinas, enquanto a outra é exibida no horário nobre, com a bênção da CBF e a conivência de clubes centenários.

Nesse contexto, o futebol, paixão popular que já serviu de metáfora para o país, agora serve de vitrine para um modelo de negócio que mercantiliza a esperança.

Considerações finais

É importante mencionarmos que quando o torcedor vê seu time entrar em campo, ele deposita ali um tipo de fé, não no lucro, mas no pertencimento, no sonho, no amor à camisa. As bets sequestram essa emoção e a transformam em aposta, convertendo a paixão em produto. É a financeirização do afeto, uma versão esportiva da lógica que tudo transforma em capital: até o gol virou algoritmo.

Talvez minha recusa em comprar a nova camisa do São Paulo pareça uma atitude pequena, um gesto inútil diante da avalanche de dinheiro que move o futebol. Mas é o que posso fazer para não me tornar cúmplice. Porque há momentos em que resistir começa com algo simples: dizer não a uma marca, a uma aposta, a uma lógica que confunde diversão com destruição.

*O auto é sociólogo

Arte: Gilmal

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