Segurança pública: mote para eleição

Flávio Lauria discute a insegurança em Manaus, o domínio das facções criminosas e a ausência de lideranças políticas capazes de enfrentar a crise da violência urbana.

Violência urbana e crise da segurança pública em Manaus

Por Flávio Lauria*

Publicado em: 04/06/2026 às 08:53 | Atualizado em: 04/06/2026 às 08:53

Eu sinceramente não entendo a mídia nacional. Claro que o Presidente Trump é um desloucado e jamais deveria interferir no Brasil e no processo eleitoral, como parece. Mas dizer que a qualificação do PCC e do CV como terroristas fere a soberania nacional é não conhecer quem mora em locais dominados por estas facções, que não têm soberania nenhuma. São reféns do tráfico e das milícias. A insegurança afeta a todos.

Na realidade brasileira e amazonense, mas sobretudo manauara, viver deixou de ser muito perigoso, como assegurava quanto aos sertões Riobaldo, o Tatarana, de Guimarães Rosa. Tornou-se lotérico. Não é preciso sair às ruas: as balas entram pelas janelas. E é impossível saber se vêm de armas de marginais ou da polícia. Também não se sabe se é mais perigoso a polícia ficar guardada na segurança dos quartéis ou sair para a insegurança das ruas.

Os próprios delegados de polícia estão inseguros em suas delegacias. Nos anos 30 de Chicago o estardalhaço era maior. Mais pitoresco. Porém menos mortífero para o cidadão comum, a dona de casa, a professora, os alunos das escolas. Sem chegar aos níveis manauaras, há alguns anos Nova York também apresentava índices inaceitáveis de insegurança.

O vazio político da segurança pública

Não pretendo propor nenhuma reforma ou medida das inúmeras que os especialistas conhecem melhor do que eu. O que estamos enxergando é um enorme espaço político desperdiçado; o vazio da Segurança Pública. É duvidoso que um de 10, 20 ou até 30 cidadãos-eleitores da cidade saiba quem é o secretário da Segurança ou de qualquer outra alta autoridade responsável.

Portanto, aí está uma vaga que, preenchida por alguém capaz de devolver segurança à população, certamente transformará esse nome em um dos mais populares da cidade, o que pode significar uma candidatura imbatível nas próximas eleições.

Nesse mesmo espaço, o da segurança, existem outras vagas a serem preenchidas, com semelhante potencial de retorno eleitoral. Haverá alguém em Nova York que ignore o nome do seu chefe de polícia? Até as eleições há tempo de sobra para tomar medidas que garantam este retorno.

Não será necessário investir somas fabulosas em jingles na mídia. Nem gastar com marqueteiros eleitorais. A mídia fará de graça o renome dos que devolverem a garantia de vida aos eleitores manauaras/amazonenses. O que se diz a respeito da segurança pode-se repetir a propósito do problema do desemprego.

Desemprego, abandono e ausência de liderança

Estamos fartos de assistir a programas de partidos políticos explorando o desemprego e debitando sua existência a outros políticos. Não precisamos que político nenhum nos fale do que esse problema significa. Nem o desempregado tira benefício algum de ter sua dificuldade exposta pela tevê. Não consta que paguem cachê para exibi-la. O que não vemos é ninguém fazer nada pelo emprego. Não nas dimensões que o problema exige e comporta.

Recentemente, o governo do Estado anunciou um programa para atacar o problema. O noticiário e as filas superaram o esforço. O governo dedicava 0,4% de seu orçamento ao problema do desemprego, e a grande ideia que encontrara fora a das frentes de trabalho usadas, há decênios, nos Estados mais miseráveis da Federação.

Há, sem dúvida, um número incontável de organizações oficiais dedicadas a atacar o problema do desemprego, gastando certamente milhões e empregando dezenas ou centenas de tecnoburocratas bem remunerados. Seria muito interessante saber quantos empregos estão gerando e quanto custa a geração de cada um. Massa não inferior de repartições deve existir para auxiliar e promover a criação de médias, pequenas e microempresas.

Trata-se de um vazio político-eleitoral formidável, capaz de eleger figuras que metessem a mão na massa com a criatividade que os recursos modernos proporcionam e com a seriedade e coragem que o problema exige. Mas a vontade de assumir e resolver problemas exige vocação de liderança. E ela não se fabrica mercadologicamente, pouco tendo a ver com campanhas eleitorais e fúteis ambições de poder.

O autor é doutor em Administração Pública.*

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.