Por que empresas do polo industrial de Manaus usam dólar para comprar da China?
Plinio Coêlho apresenta pesquisa sobre empresas do Polo Industrial de Manaus que explica a permanência do dólar nas importações da China, apesar do avanço do renminbi.
Por Plinio Cesar Coêlho*
Publicado em: 08/06/2026 às 13:47 | Atualizado em: 08/06/2026 às 15:53
A China consolidou-se como o principal parceiro comercial do Polo Industrial de Manaus (PIM). Em diversos segmentos industriais, especialmente no setor eletroeletrônico, mais de 60% dos insumos utilizados pelas empresas têm origem chinesa. Diante dessa realidade, surge uma pergunta aparentemente simples: se as empresas compram da China, por que continuam pagando em dólar americano e não na moeda chinesa, o renminbi (RMB)?
Essa foi a questão central da minha pesquisa de doutorado em Ciências Empresariais e Sociais. A investigação buscou compreender os fatores que explicam a permanência predominante do dólar nas operações internacionais realizadas pelas empresas do Polo Industrial de Manaus, mesmo em um contexto de crescente aproximação econômica entre Brasil e China.
A pesquisa utilizou uma abordagem quantitativa e qualitativa. Na etapa quantitativa, foram analisadas séries históricas do Banco Central do Brasil referentes às taxas de câmbio entre o real, o dólar e o renminbi no período de 2023 a 2025. O objetivo foi verificar como diferentes escolhas monetárias poderiam impactar os custos das importações provenientes da China. Paralelamente, foram aplicados questionários e realizadas análises junto a empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus.
O dólar no PIM
Os resultados da análise cambial revelaram um dado particularmente relevante. Considerando as oscilações observadas nas taxas de câmbio durante o período analisado, os cálculos realizados indicaram um saldo líquido favorável ao renminbi de aproximadamente US$ 86,17 milhões no triênio 2023–2025, valor equivalente a mais de R$ 250 milhões.
Evidentemente, esse resultado não significa que todas as empresas deveriam substituir imediatamente o dólar pela moeda chinesa. Entretanto, demonstra que existiam diferenças econômicas suficientemente relevantes para justificar estudos comparativos mais aprofundados e avaliações sistemáticas sobre alternativas monetárias disponíveis para as operações internacionais.
Outro resultado relevante da pesquisa foi a constatação de que apenas uma das quinze empresas investigadas utiliza parcialmente o renminbi em suas operações internacionais. Trata-se de uma organização com participação de capital chinês e norte-americano, característica que a diferencia das demais empresas da amostra. As outras quatorze empresas, correspondentes a 93,3% da amostra pesquisada, continuam utilizando exclusivamente o dólar como moeda de faturamento e liquidação de suas importações.
Foi justamente nesse ponto que surgiu uma das principais descobertas da pesquisa. Apesar da existência de resultados econômicos potencialmente favoráveis em determinados períodos, 93,3% das empresas pesquisadas continuam utilizando exclusivamente o dólar em suas operações internacionais. A partir dessa constatação, a tese identificou um fenômeno denominado Inércia Cambial Organizacional, entendido como a tendência das organizações de manter práticas monetárias historicamente consolidadas, mesmo quando existem alternativas potencialmente disponíveis.
O desconhecimento do CIPS
A principal descoberta da pesquisa não foi financeira, tecnológica ou regulatória. O fator mais relevante identificado foi a existência de uma significativa brecha informacional. Os dados mostraram que 93,3% das empresas pesquisadas não conhecem o sistema internacional de pagamentos CIPS, utilizado para liquidações em renminbi.
O mesmo percentual nunca realizou estudos comparativos entre operações em dólar e em RMB e também não desenvolveu estudos de viabilidade para avaliar uma eventual utilização da moeda chinesa. Além disso, 80% das empresas informaram que nunca receberam de seus bancos alternativas estruturadas relacionadas à utilização do renminbi.
A pesquisa também identificou um conhecimento extremamente limitado sobre os mecanismos de cooperação financeira estabelecidos entre Brasil e China, incluindo instrumentos disponibilizados pelos bancos centrais dos dois países para facilitar operações em moedas locais.
Esse resultado é particularmente relevante porque Brasil e China vêm construindo, nos últimos anos, mecanismos institucionais destinados a ampliar as possibilidades de liquidação financeira em moedas locais. Entre eles encontram-se acordos de cooperação monetária e instrumentos que ampliam a disponibilidade de liquidez para operações em renminbi.
No entanto, as evidências obtidas sugerem que tais mecanismos ainda são pouco conhecidos pelas empresas investigadas, limitando seu potencial de utilização nas operações de comércio exterior.
Esses resultados ajudam a compreender por que a mudança não ocorre. Muitas empresas não rejeitam a moeda chinesa após uma análise detalhada. Na verdade, a maioria sequer avaliou formalmente essa possibilidade. O dólar continua sendo utilizado porque já está incorporado às rotinas empresariais, aos sistemas financeiros, às práticas de mercado e aos processos decisórios das organizações.
Racionalidade limitada
Essa constatação dialoga com as contribuições do economista e Prêmio Nobel Herbert Simon. Segundo Simon, os indivíduos e as organizações tomam decisões sob condições de racionalidade limitada. Nem sempre dispõem de todas as informações necessárias para comparar todas as alternativas disponíveis. Por isso, tendem a adotar soluções conhecidas e consideradas suficientemente seguras.
A pesquisa também dialoga com John Maynard Keynes, que destacou a importância da incerteza nas decisões econômicas. Em ambientes complexos, os agentes econômicos frequentemente preferem caminhos já conhecidos, reduzindo riscos percebidos e evitando mudanças consideradas incertas.
Do ponto de vista metodológico, a investigação seguiu os princípios defendidos por Karl Popper. Em vez de partir de conclusões pré-definidas, procurou testar hipóteses por meio de evidências empíricas. O objetivo não foi demonstrar que o dólar é melhor ou pior que o renminbi, mas compreender quais fatores explicam o comportamento efetivamente adotado pelas empresas.
As conclusões da pesquisa também dialogam com economistas contemporâneos como Paul Krugman, que destaca a importância das instituições, das expectativas e das estruturas consolidadas na dinâmica econômica internacional. Mercados não funcionam apenas com base em cálculos matemáticos. Eles também são influenciados por hábitos, informações disponíveis, estruturas organizacionais e percepções de risco.
Gestão cambial e competitividade
O principal ensinamento da pesquisa é que a competitividade empresarial depende não apenas da capacidade de produzir e vender, mas também da capacidade de analisar informações, avaliar alternativas e gerir adequadamente os riscos associados às operações internacionais.
Em um mundo marcado por rápidas transformações econômicas e geopolíticas, empresas que acompanham de forma sistemática as mudanças nos mercados financeiros e cambiais tendem a ampliar sua capacidade de adaptação e de tomada de decisões estratégicas.
A pesquisa não conclui que as empresas devam abandonar o dólar ou substituir suas operações pelo renminbi. O que as evidências sugerem é a necessidade de uma gestão cambial mais ativa, baseada em informação, análise e monitoramento permanente das condições de mercado. A diversificação monetária, quando tecnicamente viável e economicamente justificável, pode representar um instrumento adicional de gestão de riscos, reduzindo a dependência exclusiva de uma única moeda.
Mais importante do que escolher previamente entre dólar ou renminbi é desenvolver a capacidade de avaliar continuamente os custos, os riscos e as oportunidades associados a cada alternativa disponível. Foi justamente a ausência dessa avaliação sistemática que apareceu como um dos principais elementos associados à Inércia Cambial Organizacional observada nas empresas pesquisadas do Polo Industrial de Manaus.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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