Um jardim de amor
Em "Um jardim de amor", Robério Braga transforma memória, afeto e destino em uma narrativa poética sobre o encontro de almas e a delicada arte de cultivar o amor.
Por Robério Braga*
Publicado em: 13/06/2026 às 10:36 | Atualizado em: 13/06/2026 às 10:41
Cultivando as letras e as artes por estímulo de meus pais, desde quando ainda criança, fui experimentando conhecer a beleza em forma de poesia, romance, teatro e música em harmonia com os estudos cotidianos, sem perder as oportunidades das diversões mais apropriadas para a idade nem abandonar as peraltices que, hoje sei, pareciam exceder ao aceitável, não fosse para um menino levado.
Percorri caminhos que sempre me pareceram largos, os quais, após tempos passados, entendi que, sem perceber, me foram sendo abertos pelos pais, irmãos e irmãs. Era no silêncio do carinho e do afeto que me conduziam, indicando trilhas mais amenas que me permitissem alcançar a realização dos sonhos.
Por essas trilhas fui ampliando meu caminhar, mas os delicados faróis do estímulo que constrói jamais me faltaram. Amigos e professores fortaleceram a esperança que me permitiu seguir. A mesa de preces em derredor da qual a família se reunia com frequência, como fazia desde muitos anos, me ensinava sobre a eternidade da vida espiritual, os compromissos que firmamos na reencarnação e que existem famílias espirituais e encontro de corações que se entrelaçam, como se fossem inexplicáveis.
O encontro com a Rosa
Depois, tempos corridos, algumas conquistas, realizações e alegrias alcançadas as quais não posso olvidar porque me fizeram um homem feliz, com olhar atento a tudo que se passasse ao meu redor ou mesmo distante, percebi que em um jardim recolhido à espera de um florista que a ele se dedicasse, havia uma rosa que se me apresentava de forma singular e tímida.
Ao percebê-la, quase ao inesperado dei-me a cultivá-la e fui observando como suas pétalas reacendiam em fulgor sem perder a leveza e a elegância a cada vez que eu conseguia fazer chegar ao seu recanto as modestas traduções do sentimento que em mim brotava.
Se não eram pérolas da literatura, pois não as tinha para oferecer, as palavras, muitas vezes postas como poesia, traduziam minh’alma desabrochando pura e radiante para cultivar a rosa mais bela entre todas que pudesse ter visto, e que despontava daquele jardim para o meu coração e aumentava o brilho ao cruzar com meus olhos e perceber meu encantamento.
Ao olhar mais próximo, havia outros valores naquela flor que me seduzia em silêncio à distância e, em verdade, era uma Rosa-mulher que me apaixonava, uma inteligência resplandecente que versava na prosa, um caráter sem igual, uma fulgurância que percorrera seus próprios caminhos e se fizera reconhecida pelo saber e por uma luz que irradiava do seu interior.
Como se as nossas trilhas tivessem sido traçadas em conjunto, apenas aguardando o tempo certo para se entrelaçarem, eu e a Rosa do meu encanto fomos nos aproximando e aos poucos compreendendo que, com mãos em comum, deveríamos cuidar das flores que trazíamos cada um no seu próprio regaço e dar a elas o viço e a pureza que conseguíramos reunir.
O jardineiro sabe que é preciso vigiar para que o sol não arda fortemente nem o vento desfolhe a sua Rosa muito amada: a menina, o botão, a mulher, a Rosa de paixão. E a Rosa sabe que, para o seu jardineiro, é tudo manter o olhar profundo que dele cuide sem sequer precisar de mais nada que não seja o amor.
Afinal, foi assim que nos encantamos, confirmando os sábios registros de que cada um se torna eternamente responsável por aquilo que cultiva e o que se deu é que, sem perdermos a essência de criança, confiamos um no outro, vendo com o coração, pois aprendemos juntos o que havíamos lido um dia, que o “essencial é invisível aos olhos”.
É desse jardim de amor, de uma única Rosa em permanente verdor e perfume exclusivo, que cuido com sabor de eternidade.
O autor é membro da Academia Amazonense de Letras.*
Foto: Arquivo pessoal.
