Marx: previsões confirmadas

Plinio Coêlho discute como dados contemporâneos sobre desigualdade, financeirização e crises econômicas reforçam hipóteses formuladas por Marx no século XIX.

Karl Marx e as contradições do capitalismo contemporâneo

Por Plinio Cesar Coêlho*

Publicado em: 11/06/2026 às 08:00 | Atualizado em: 09/06/2026 às 18:58

Em 1883, Karl Marx faleceu em Londres. Passados mais de 140 anos, seu nome continua provocando debates apaixonados. Para alguns, trata-se de um autor superado pela história. Para outros, continua sendo um dos maiores intérpretes do capitalismo. Independentemente das preferências ideológicas, uma questão merece ser analisada cientificamente: as hipóteses formuladas por Marx no século XIX encontram respaldo nos dados produzidos pelo século XXI?

A resposta parece ser afirmativa em pelo menos quatro aspectos centrais: a concentração e centralização do capital, a concentração da riqueza em um polo e da desigualdade em outro, a recorrência das crises econômicas e a crescente financeirização da economia.

A concentração do capital no século XXI

A primeira hipótese refere-se à concentração e centralização do capital. Marx argumentava que a dinâmica da concorrência levaria empresas maiores a absorverem empresas menores, resultando na formação de grupos econômicos cada vez mais poderosos. O pequeno capital tenderia a perder espaço diante da expansão dos grandes conglomerados.

Mais de um século depois, o capitalismo global apresenta exatamente essa característica. Grandes corporações multinacionais controlam cadeias globais de produção, logística, tecnologia, comércio eletrônico, sistemas operacionais, redes sociais, inteligência artificial, serviços financeiros e infraestrutura digital. Fusões e aquisições transformaram-se em fenômenos permanentes da economia contemporânea.

O geógrafo e economista David Harvey, um dos mais importantes intérpretes contemporâneos de Marx, sustenta que a globalização não reduziu a concentração econômica. Pelo contrário, ampliou os mecanismos de acumulação e centralização do capital, fortalecendo gigantes empresariais e financeiros em escala mundial.

Desigualdade e riqueza concentrada

A segunda hipótese talvez seja a mais impressionante. Marx sustentava que o capitalismo possui extraordinária capacidade de gerar riqueza, mas que essa riqueza tende a concentrar-se em grupos relativamente pequenos da sociedade.

Os dados contemporâneos são eloquentes.

Segundo a Oxfam, o mundo ultrapassou a marca de 3.000 bilionários em 2025. O patrimônio acumulado por esse grupo atingiu aproximadamente US$ 18,3 trilhões. Para efeito de comparação, esse valor supera o Produto Interno Bruto da China, segunda maior economia do planeta, e equivale a cerca de oito vezes o PIB brasileiro.

A concentração torna-se ainda mais impressionante quando observamos os indivíduos mais ricos do planeta. Os dez maiores bilionários do mundo acumulam patrimônio superior a US$ 2,5 trilhões, valor superior ao Produto Interno Bruto anual do Brasil.

Os números do World Inequality Lab revelam quadro ainda mais expressivo. Apenas 0,001% da população mundial – cerca de 60 mil pessoas – detém riqueza equivalente a três vezes todo o patrimônio da metade mais pobre da humanidade. Além disso, os 10% mais ricos concentram aproximadamente 75% da riqueza global, enquanto os 50% mais pobres possuem apenas cerca de 2%.

Esses resultados dialogam diretamente com os estudos de Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman. Em O Capital no Século XXI, Piketty demonstra que, quando a taxa de retorno do capital supera o crescimento da economia, a riqueza tende a concentrar-se progressivamente entre os proprietários dos ativos econômicos.

O capitalismo brasileiro e a desigualdade

O Brasil reproduz esse fenômeno em escala nacional. Apesar de figurar entre as maiores economias do mundo, permanece entre os países com maior concentração de renda e patrimônio. Uma pequena parcela da população controla grande parte dos ativos financeiros, empresariais e imobiliários, enquanto a maioria depende exclusivamente da renda do trabalho.

No Amazonas, o Polo Industrial de Manaus oferece uma ilustração concreta dessa realidade. Dados da SUFRAMA mostram que, em 2025, o PIM empregava aproximadamente 112 mil trabalhadores diretos. Entretanto, 57,17% desses trabalhadores recebiam até dois salários mínimos.

Ao mesmo tempo, o Polo Industrial movimentava mais de R$ 200 bilhões anuais em faturamento. Em outras palavras, uma estrutura econômica capaz de gerar centenas de bilhões de reais em riqueza mantém a maior parte de sua força de trabalho concentrada nas faixas salariais inferiores. Trata-se de um exemplo regional da coexistência entre elevada produção de riqueza e distribuição desigual de seus resultados.

Crises econômicas e instabilidade permanente

A terceira hipótese marxista refere-se às crises econômicas. Para Marx, as crises não constituem acidentes ocasionais, mas elementos inerentes ao funcionamento do capitalismo. A expansão do crédito, a concorrência, a busca incessante pelo lucro e os ciclos de investimento produzem períodos recorrentes de instabilidade.

A história econômica recente oferece ampla evidência dessa tendência. O mundo assistiu à crise da dívida latino-americana nos anos 1980, à crise asiática de 1997, à crise russa de 1998, ao colapso das empresas de tecnologia em 2000, à grande crise financeira internacional de 2008, à crise econômica decorrente da pandemia e a diversos episódios de instabilidade bancária e financeira. Os bancos centrais e organismos internacionais passaram as últimas décadas tentando administrar crises que surgem repetidamente.

A era da financeirização

A quarta hipótese diz respeito à crescente predominância das finanças sobre a produção. Marx analisou esse fenômeno ao estudar o capital portador de juros e o chamado capital fictício. Embora não tenha conhecido os modernos mercados financeiros, percebeu que o capitalismo caminhava para formas de valorização cada vez mais distantes da produção material.

Hoje esse fenômeno é conhecido como financeirização. Autores como David Harvey, François Chesnais, Giovanni Arrighi e Costas Lapavitsas demonstram que uma parcela crescente dos lucros mundiais é obtida por meio de operações financeiras, títulos, fundos de investimento, derivativos e ativos especulativos. Em muitos casos, o rendimento financeiro supera os ganhos obtidos diretamente na produção de bens e serviços.

Mais uma vez, observa-se uma impressionante convergência entre a análise formulada por Marx no século XIX e a realidade observada no século XXI.

Por que Marx continua atual

Naturalmente, isso não significa que Marx tenha acertado tudo. O capitalismo contemporâneo é muito mais complexo do que aquele observado durante a Revolução Industrial. Tampouco significa que todas as conclusões marxistas tenham sido confirmadas pela história.

Entretanto, os dados produzidos por instituições como a Oxfam, o World Inequality Lab, organismos internacionais, universidades e pesquisadores contemporâneos revelam que algumas das principais tendências identificadas por Marx continuam presentes: concentração do capital, concentração da riqueza, desigualdade persistente, crises recorrentes e expansão do poder das finanças.

Por isso, talvez a melhor conclusão seja simples: Marx não morreu. Continua vivo porque muitos dos problemas que identificou no século XIX permanecem no centro dos debates econômicos do século XXI.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

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