O peixe pode redefinir o futuro econômico da Amazônia
Fabiano Bó analisa o potencial da piscicultura na Amazônia como alternativa sustentável para impulsionar desenvolvimento econômico, produção de alimentos e geração de renda regional.
Por Fabiano Bó*
Publicado em: 06/06/2026 às 13:22 | Atualizado em: 06/06/2026 às 13:22
Durante décadas, a Amazônia foi observada internacionalmente como patrimônio ambiental, reserva estratégica de biodiversidade e símbolo das discussões climáticas globais. Pouco se percebeu, porém, que a região também abriga uma das maiores possibilidades de produção alimentar sustentável do planeta.
Em um mundo pressionado pelo crescimento populacional, pela demanda crescente por proteína animal e pela necessidade de sistemas produtivos menos agressivos ao meio ambiente, a água passou a ocupar posição central dentro da geopolítica da segurança alimentar. E poucos territórios concentram condições tão favoráveis para a produção aquícola quanto a Amazônia brasileira.
A piscicultura deixou de ser uma atividade secundária e passou a integrar um dos segmentos mais promissores do agronegócio mundial. Segundo dados do Anuário Peixe BR 2026, a produção brasileira de peixes cultivados ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 1 milhão de toneladas em 2025, consolidando crescimento de 4,41% em relação ao ano anterior.
O levantamento também aponta o fortalecimento dos peixes nativos dentro da cadeia aquícola nacional, especialmente espécies amazônicas como tambaqui e pirarucu, que ganharam espaço tanto no abastecimento interno quanto em mercados gastronômicos de maior valor agregado.
A água como ativo estratégico global
A relevância econômica desse avanço vai muito além da produção em si. A piscicultura reúne características cada vez mais valorizadas no cenário internacional. Trata-se de uma atividade com elevada eficiência alimentar, menor emissão de carbono em comparação a outras proteínas animais e forte capacidade de expansão sem exigir os mesmos níveis de ocupação territorial observados em outros modelos produtivos.
Em um contexto global de preocupação crescente com sustentabilidade e segurança alimentar, produzir proteína a partir da água passou a representar não apenas oportunidade econômica, mas vantagem estratégica.
Nesse cenário, a Amazônia ocupa posição singular. A região reúne disponibilidade hídrica incomparável, clima favorável e espécies nativas altamente adaptadas às condições ambientais locais. Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o consumo de pescado na Região Norte permanece entre os maiores do país, refletindo uma relação histórica entre alimentação, economia regional e recursos pesqueiros. Em diversas áreas do interior amazônico, o peixe não representa apenas atividade comercial. Ele integra a própria base alimentar e econômica das populações locais.
Os gargalos estruturais da piscicultura amazônica
Entretanto, transformar esse potencial em desenvolvimento concreto continua sendo um dos grandes desafios regionais. A cadeia produtiva da piscicultura ainda enfrenta gargalos estruturais significativos, especialmente relacionados ao custo de produção.
Segundo estudos técnicos da Embrapa Pesca e Aquicultura, a alimentação dos peixes pode representar até 70% do custo operacional da atividade. Isso faz com que estados integrados à produção de milho e soja possuam vantagem econômica importante dentro do setor aquícola nacional.
Essa dinâmica ajuda a explicar o protagonismo de Rondônia na produção brasileira de peixes nativos cultivados. Segundo o Anuário Peixe BR 2026, o estado ultrapassou 55 mil toneladas produzidas em 2025 e consolidou liderança nacional no segmento.
A integração entre piscicultura, produção de grãos e logística terrestre criou um ambiente mais competitivo e economicamente eficiente. Enquanto isso, o Amazonas ainda enfrenta obstáculos relacionados ao transporte regional, à dependência fluvial, ao elevado custo de insumos e às limitações de infraestrutura em boa parte do interior.
Os eventos climáticos extremos registrados recentemente agravaram ainda mais esse cenário. As estiagens severas dos últimos anos comprometeram a navegabilidade dos rios amazônicos, afetando diretamente o abastecimento, o transporte de cargas e o funcionamento da economia regional. Segundo dados oficiais do Porto de Manaus, o Rio Negro registrou, em 2024, a menor cota já monitorada historicamente.
Em uma região onde os rios representam a principal estrutura de circulação econômica, qualquer interrupção prolongada impacta imediatamente a produção, o abastecimento e a estabilidade das cadeias produtivas.
Mesmo diante dessas limitações, a piscicultura permanece como uma das atividades de maior capacidade transformadora para a economia amazônica. Além da geração de renda e da produção de alimentos, a atividade possui forte potencial de interiorização econômica, permitindo a criação de oportunidades fora dos grandes centros urbanos. Em muitos municípios, a produção de pescado já ocupa papel relevante na movimentação econômica local, fortalecendo pequenos produtores, agricultura familiar e cadeias regionais de abastecimento.
O peixe como vetor de desenvolvimento regional
O futuro econômico da Amazônia provavelmente passará pela capacidade de transformar recursos naturais em cadeias produtivas sustentáveis, tecnologicamente eficientes e socialmente integradas à realidade regional. E poucas atividades sintetizam tanto essa possibilidade quanto a piscicultura.
O desafio não está em provar que a Amazônia possui potencial. Isso os números já demonstram. O verdadeiro desafio consiste em criar condições estruturais para que a região consiga converter sua abundância hídrica em desenvolvimento, competitividade e estabilidade econômica de longo prazo.
O autor é coronel da Polícia Militar, especialista em Política e Estratégia (ADESG) e secretário de Estado Chefe da Casa Militar do Amazonas*.
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