A morte da atenção

Aldenor Ferreira analisa como a morte de uma jovem em um salto de rope jump expõe os efeitos da sociedade da desatenção, marcada pela dispersão, aceleração e perda da concentração.

Salto da morte

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 20/06/2026 às 08:00 | Atualizado em: 18/06/2026 às 20:57

A morte de uma jovem durante um salto de rope jump no interior de São Paulo chocou o país. A tragédia, por si só, já bastaria para causar indignação. No entanto, um detalhe torna tudo ainda mais perturbador: ela foi lançada no vazio sem a corda presa ao corpo.

O fato é brutal. Mais do que isso, é brutal perceber que havia várias pessoas ao redor. Algumas operavam o salto. Outras filmavam a cena. Ninguém percebeu o erro elementar. Ninguém viu o essencial.

Na verdade, esse episódio revela algo muito maior do que uma falha técnica. Ele expõe um sintoma profundo da sociedade da desatenção. E esse talvez seja um dos traços mais graves do nosso tempo.

É inadmissível imaginar que, em uma operação de risco, a checagem básica simplesmente desapareça. Com efeito, esse desaparecimento não surgiu do nada. Ele reflete uma transformação profunda da experiência humana na sociedade do nosso tempo.

A distração como modo de vida

Vivemos cercados por estímulos. Ao mesmo tempo, consumimos imagens, mensagens, vídeos e notificações em ritmo contínuo. Além disso, alternamos de tela em tela sem pausa. Por isso, a concentração se fragmenta.

O filósofo Byung-Chul Han chama atenção para esse fenômeno. Segundo ele, a era digital destruiu a capacidade contemplativa. Em vez de atenção profunda, desenvolvemos uma hiperatenção dispersa. Saltamos de um estímulo para outro. Contudo, raramente permanecemos em um só.

Desse modo, amplia-se a lógica da sociedade da desatenção.

A aceleração e o espetáculo da vida

O sociólogo Hartmut Rosa oferece outra chave importante. Para ele, a vida contemporânea gira em torno da aceleração. A velocidade tornou-se uma exigência permanente. Viver intensamente, registrar experiências e responder rapidamente passaram a definir o ritmo do nosso tempo.

No rope jump do interior de São Paulo, isso fica evidente. O salto já não basta. Agora é preciso filmar. É preciso postar. É preciso transformar a experiência em espetáculo. Assim, a câmera desloca a atenção do acontecimento para sua imagem.

E isso muda tudo. Quando a imagem ocupa o centro, a realidade perde densidade. A experiência deixa de ser vivida plenamente. Passa a ser consumida como performance. Theodor Adorno e Max Horkheimer já alertavam para esse risco.

Segundo os autores, a técnica, quando se autonomiza, tende a esvaziar a reflexão crítica. O protocolo continua, porém, a consciência desaparece. Todos fazem. No entanto, poucos pensam. Esse é um ponto central da sociedade da desatenção a qual vivemos.

Quando ver tudo significa perceber menos

O sociólogo Georg Simmel também ajuda a compreender o problema. Ao analisar a vida moderna, ele descreveu a atitude blasé. Trata-se daquele estado em que o excesso de estímulos embota a sensibilidade.

Hoje, entretanto, o digital radicalizou essa condição. Vemos tudo. Sabemos de tudo. Comentamos tudo. Mas percebemos cada vez menos.

Por consequência, esse processo tem efeitos graves. Ele afeta o trabalho. Afeta as relações humanas. Afeta, sobretudo, a educação. Ler um livro inteiro tornou-se um desafio para muitos. Sustentar a atenção em uma aula tornou-se difícil. Elaborar pensamento complexo exige um esforço que muitos já não conseguem realizar.

Aqui, o geógrafo Milton Santos oferece uma contribuição decisiva. Ao analisar o meio técnico-científico-informacional, ele mostrou como a técnica reorganiza o espaço, o tempo e a vida social. A técnica não é neutra. Ela produz modos de viver. E, hoje, ela também produz modos de perceber.

Considerações finais

Por isso, a tragédia do rope jump ultrapassa o limite do acidente. Ela funciona como metáfora brutal da nossa época. Uma época marcada pela dispersão, pela ansiedade e pela incapacidade de sustentar a atenção no essencial.

Talvez o maior drama da sociedade da desatenção não seja o excesso de informação. Talvez seja o colapso da presença.

Por fim, quando ninguém vê o essencial, o abismo deixa de ser metáfora. Ele se torna realidade. No caso em tela, uma dura realidade para a moça e sua família.

O autor é sociólogo.*

Arte: Gilmal.