Por uma levantadora de toadas nos bois de Parintins

Dassuem Nogueira discute a exclusão histórica das mulheres no boi-bumbá e questiona por que uma levantadora de toadas ainda enfrenta resistência em Parintins.

Levantadora de toadas no Festival de Parintins

Por Dassuem Nogueira*

Publicado em: 13/06/2026 às 13:56 | Atualizado em: 13/06/2026 às 13:56

Uma das vitórias do projeto colonial/patriarcal foi naturalizar em nós a noção de que aos homens cabe a esfera pública e às mulheres, a esfera privada. Com base nessa perspectiva, a história, a presença e a importância das mulheres na vida social foram apagadas, distorcidas ou diminuídas.

É comum contarmos a história do boi-bumbá como brincadeira de homens e de inserção posterior das mulheres. Porém, essa forma diminui seu papel fundamental na organização estrutural da festa, que incluía costurar fantasias, preparar o mingau que recebia os brincantes nos quintais e, afinal, festejar junto.

A exclusão das mulheres não ocorre por falta de capacidade, mas por relações de poder e desigualdade.

Haveria festa sem elas?

Podemos pensar em Dona Filomena que, segundo nos conta o mestre Raimundinho Dutra em seu livro de memórias, foi responsável por liderar a juventude parintinense do início do século passado, ensinando-lhes a tocar e fabricar instrumentos da batucada, a dança de Xangô e demais brincadeiras que aprendera na senzala de Cametá, onde nascera já livre, e que são as raízes do folclore parintinense.

Podemos pensar em Dona Antônia, esposa de mestre Lindolfo, criador do boi Garantido, como uma grande anfitriã que recebia em seu barracão, na Baixa da Xanda, um contingente considerável de brincantes, administrando recursos e conflitos.

A voz das mulheres

Assim, podemos repensar a voz das mulheres na toada. Temos uma levantadora de toadas oficial desde 2020: Márcia Siqueira no boi Garantido. Pelo menos desde 1998, a levantadora grava e canta toadas de boi-bumbá, compõe o backing vocal do boi vermelho e faz participações especiais na arena, comumente representando as vozes femininas da mãe terra, mãe da mata, Iara, em suma, o feminino amazônico.

Mas, quando há discussões sobre quem defenderá o item, o nome de Márcia Siqueira não é realmente considerado, e não é porque a levantadora não seja competente ou suficientemente querida.

Afinal, o que a impede de assumir o posto de levantadora de toadas?

Impedimento

Diz-se que a voz feminina não seria capaz de, literalmente, “levantar a galera”. O que não se sustenta quando pensamos na quantidade de divas do axé que fazem carnaval de rua levantando multidões por uma semana.

E, para pensar apenas em toada, por exemplo, Márcia Novo faz apresentações excepcionalmente contagiantes.

Técnica

Diz-se, ainda, que teriam de adaptar todo um maquinário técnico e o conjunto harmônico dos instrumentos musicais para sustentar a voz feminina. Bem, e por que não fazem?

Não saberiam? Para tantas coisas que não sabem, o corpo técnico do boi-bumbá paga caríssimo para que outros façam do modo como necessitam ou desejam. Por que não fariam para sustentar suas levantadoras?

Ritual

Dizem também que a voz feminina não sustenta o momento solene do ritual. Isso porque o Festival de Parintins criou uma estética em que os rituais são assombrosos. Nisso, associou-se o grave da voz masculina a certa autoridade ritual representada pelo pajé.

Ocorre que, como a maioria dos que pensam e fazem os espetáculos são homens, espelham-se nessa perspectiva. Mas há tantas Matintas Pereiras, há tantas avós do mundo, Conorís, que tal argumento não se sustenta.

O universo ritual não é exclusivamente masculino, embora assim insistam certas narrativas.

Realidade

A própria Márcia Siqueira tem gravações belíssimas de rituais como Tempo de Tucandeira e Dança do Fogo. Aliás, em 2012, gravou um álbum de toadas chamado Ritual, talvez uma alusão sutil a essa falaciosa limitação da voz feminina.

Lucilene Castro faz uma interpretação poderosa de Templo de Monan, toada que também é cantada agora por Maria Gadú.

Em 2024, David Assayag passou mal de calor enquanto cantava o ritual e precisou de um tempo para se recompor. Márcia Siqueira assumiu o posto e finalizou o momento sem qualquer prejuízo real.

Paula Gomes, levantadora do elenco do boi Caprichoso, captura com voz potente sempre que aparece em meio às toadas azuladas de todos os estilos.

Política

A verdade é que não querem dar a uma mulher o espaço da voz de arena. E não há argumento artístico, técnico ou estratégico que o justifique, a não ser o fato de se tratar de mulheres.

A motivação é política. Não no sentido institucional, ligado aos cargos de governo, mas no das relações de poder em sociedade, no cotidiano. Tal política se estrutura entre homens em posições de poder de modo específico. E, provavelmente, organizar-se-ia de forma diferente caso esse posto fosse ocupado por uma mulher.

Um plano

Quando se afirma que o lugar da mulher é onde ela quiser, não podemos esquecer que, na maioria das vezes, será preciso lutar muito – e por muito tempo – para ocupar os espaços que desejamos, especialmente enquanto houver quem insista em dizer que eles não nos pertencem.

Nossas divas da toada fazem um trabalho de guerrilha para estar hoje onde estão e para chegar onde podem chegar: ao posto de levantadoras de fato na arena de seus bois.

Mas um dia, que certamente chegará, pois o novo sempre chega, teremos pelo menos uma noite inteira de espetáculo com levantadoras, com Márcia Siqueira defendendo o lado vermelho e Paula Gomes o azul, por exemplo.

Qual dos bois-bumbás de Parintins entrará para a história primeiro?

A autora é antropóloga.*

Foto: Divulgação.