Não é uma questão ideológica. É uma questão econômica.

Plínio Coêlho analisa como fatores históricos, institucionais e culturais ajudam a explicar a permanência do dólar nas operações internacionais do Polo Industrial de Manaus.

Inércia cambial organizacional

Por Plinio Cesar Coêlho*

 

Publicado em: 25/06/2026 às 09:46 | Atualizado em: 25/06/2026 às 09:46

O debate sobre a utilização de moedas alternativas ao dólar no comércio internacional costuma ser rapidamente capturado por disputas ideológicas. Para alguns, qualquer discussão sobre o uso do renminbi (RMB) chinês representa uma ameaça à ordem financeira internacional. Para outros, trata-se de um movimento de enfrentamento à hegemonia monetária dos Estados Unidos.

Entretanto, os resultados de uma pesquisa realizada junto a empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM) sugerem que a questão central pode ser muito mais objetiva: trata-se, antes de tudo, de uma questão econômica.

Recentemente, o debate sobre o BRICS Pay voltou ao centro das atenções. Inspirado em experiências como o Pix brasileiro, o sistema busca facilitar pagamentos internacionais em moedas locais, reduzir custos de transação e diminuir a dependência de estruturas tradicionais como o dólar e o sistema SWIFT.

Embora especialistas apontem desafios tecnológicos, regulatórios e institucionais para sua consolidação, a própria existência da iniciativa demonstra que alternativas operacionais ao padrão monetário vigente já estão em construção.

Polo Industrial de Manaus

Os resultados da pesquisa realizada no Polo Industrial de Manaus revelaram um dado aparentemente contraditório. Mais de 60% dos insumos utilizados pelas empresas participantes possuem origem na China.

Apesar disso, 93,3% das empresas continuam realizando suas operações internacionais exclusivamente em dólares norte-americanos. Apenas uma empresa informou utilizar simultaneamente dólar e renminbi, justamente por possuir participação de capital chinês.

O aspecto mais interessante surge quando se analisam os dados de desempenho cambial. O estudo comparou o comportamento do dólar e do renminbi frente ao real brasileiro entre 2023 e 2025. Os resultados demonstraram que o RMB apresentou desempenho relativamente mais favorável nos anos de 2023 e 2024, enquanto o dólar apresentou vantagem apenas em 2025.

Considerando o conjunto do período analisado, o saldo acumulado mostrou-se favorável ao renminbi em aproximadamente US$ 86,17 milhões.

Risco percebido e ausência de estudos

Apesar disso, a pesquisa identificou que 71,4% das empresas consideram o risco cambial associado ao RMB como uma das principais razões para manter a utilização predominante do dólar. Mais surpreendente ainda: a volatilidade percebida do renminbi recebeu nota média de 4,8 em uma escala de 1 a 5, equivalente a 96% da pontuação máxima possível.

Surge então uma questão fundamental: por que gestores empresariais percebem elevado risco em uma moeda que, durante boa parte do período analisado, apresentou desempenho relativamente mais favorável que o dólar?

A resposta encontrada pela pesquisa começa pela informação, mas não termina nela.

Os resultados mostraram que 93,3% das empresas nunca realizaram estudos comparativos entre operações em dólar e renminbi. O mesmo percentual declarou não possuir conhecimento sobre o sistema RMB-CIPS, infraestrutura chinesa de pagamentos internacionais criada como alternativa ao SWIFT. Além disso, 93,3% das empresas nunca realizaram estudos de viabilidade para avaliar a utilização do RMB em suas operações.

Esses números revelam uma expressiva brecha informacional. Porém, a pesquisa demonstrou que a permanência do dólar não pode ser explicada apenas pela falta de informação.

O peso da trajetória histórica

Durante mais de cinco décadas, as empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus construíram suas operações de importação, financiamento, logística e relacionamento internacional dentro de uma arquitetura financeira global organizada em torno do dólar.

Ao longo desse período, a utilização da moeda norte-americana deixou de representar apenas uma escolha econômica para se transformar em parte integrante das rotinas administrativas, dos procedimentos organizacionais e dos processos de tomada de decisão.

Sob essa perspectiva, a permanência do dólar também possui uma dimensão histórica e cultural. As organizações tendem naturalmente a reproduzir práticas que demonstraram estabilidade no passado. A familiaridade com determinados procedimentos reduz custos de aprendizagem, diminui percepções de risco e reforça a continuidade de comportamentos já consolidados.

A pesquisa identificou ainda fatores institucionais relevantes. Em grande parte das empresas investigadas, as decisões monetárias sofrem influência direta ou indireta das matrizes empresariais, das políticas corporativas globais, dos bancos parceiros e das estruturas financeiras já estabelecidas. Assim, a escolha da moeda de faturamento nem sempre depende exclusivamente de uma avaliação econômica realizada localmente.

Também foram observados elementos cognitivos e geopolíticos. Parte dos gestores associa a utilização do dólar a uma maior sensação de segurança e previsibilidade, enquanto o renminbi continua sendo percebido como uma alternativa cercada por incertezas.

Em alguns casos, surgem preocupações relacionadas a possíveis sanções internacionais, mudanças regulatórias ou riscos decorrentes das disputas geopolíticas entre grandes potências. Ainda que tais preocupações não tenham aparecido como o principal fator explicativo, elas contribuem para reforçar a permanência do padrão monetário tradicional.

O conceito de Inércia Cambial Organizacional

É justamente nesse ponto que surge a principal contribuição da pesquisa: o conceito de Inércia Cambial Organizacional.

Esse conceito procura explicar a tendência das organizações de preservar padrões monetários historicamente consolidados mesmo quando existem alternativas operacionalmente viáveis e potencialmente vantajosas sob determinadas condições de mercado.

Trata-se de um fenômeno que envolve simultaneamente fatores informacionais, institucionais, históricos, culturais, cognitivos e geopolíticos.

Os debates atuais sobre o BRICS Pay, sobre o avanço das transações em moedas locais e sobre a crescente utilização do renminbi no comércio internacional reforçam essa interpretação. O principal desafio não parece estar na inexistência de tecnologia ou de infraestrutura financeira.

O desafio está na capacidade das organizações de avaliar novas alternativas e incorporar mudanças em estruturas decisórias construídas ao longo de décadas.

Ampliar a capacidade de escolha

A superação dessa inércia não exige a substituição do dólar pelo renminbi, nem a adoção compulsória de qualquer moeda. Exige algo muito mais simples e racional: ampliar a capacidade de escolha das empresas.

Isso passa pela realização de estudos comparativos entre moedas, pela capacitação de gestores financeiros, pela divulgação de mecanismos como o RMB-CIPS e o BRICS Pay, pela participação mais ativa das instituições financeiras, pela atuação de entidades empresariais e pela produção contínua de informações capazes de subsidiar decisões fundamentadas em evidências concretas.

A verdadeira questão não consiste em escolher entre Estados Unidos ou China, entre dólar ou renminbi. A questão central consiste em ampliar a racionalidade econômica das decisões empresariais. Quanto maior for o conjunto de informações disponíveis e quanto mais ampla for a capacidade analítica das organizações, maior será sua liberdade para escolher os instrumentos monetários mais adequados aos seus interesses econômicos.

Por isso, a principal conclusão desta pesquisa é clara: a permanência do dólar no Polo Industrial de Manaus não é apenas um fenômeno financeiro. É também um fenômeno histórico, institucional, ideológico, cultural, cognitivo e organizacional.

Compreender essa realidade é o primeiro passo para superar a Inércia Cambial Organizacional e permitir que as empresas avaliem, de forma livre e racional, as oportunidades oferecidas pelas transformações em curso no sistema monetário internacional.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

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