Reformulação do Regulamento do Festival já!

Aldenor Ferreira defende a reformulação do Regulamento do Festival de Parintins e critica a limitação do perfil dos jurados, hoje excessivamente restrito ao campo artístico.

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Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 30/06/2026 às 16:25 | Atualizado em: 30/06/2026 às 16:25

O Regulamento do Festival de Parintins precisa evoluir. Essa discussão é inevitável. A cada edição, o espetáculo cresce em complexidade, sofisticação estética e potência simbólica.

No entanto, o sistema que organiza sua disputa e define seus critérios de julgamento continua operando sob uma lógica que já não acompanha plenamente a dimensão que o festival alcançou.

Não se trata de atacar o modelo atual, mas de reconhecer um fato simples: o Festival de Parintins mudou. E, quando um fenômeno cultural se transforma, seu regulamento também precisa mudar.

Essa atualização precisa acontecer em duas frentes. Primeiro, na revisão permanente do próprio regulamento. Segundo, na ampliação do rol de profissionais aptos a compor o corpo de jurados.

O problema é estrutural.

Um regulamento que envelhece

Todo regulamento nasce situado no tempo. Ele responde às necessidades de uma época. Contudo, quando o objeto regulado evolui, insistir nas mesmas regras pode gerar distorções.

No caso do Festival de Parintins, isso é evidente.

Hoje, o festival não é apenas um espetáculo folclórico. Ele se tornou um grande sistema de produção cultural, reunindo música, dança, cenografia, performance, ritualidade, tecnologia, dramaturgia, memória coletiva e identidade amazônica.

Além disso, movimenta cadeias econômicas, mobiliza afetos coletivos e projeta internacionalmente formas próprias de produção simbólica. Ou seja, o festival deixou de ser apenas festa. Tornou-se um fenômeno cultural total conforme estudado pelo antropólogo Marcel Mauss.

E é justamente por isso que o Regulamento do Festival de Parintins não pode ser tratado como peça intocável.

Quem pode julgar hoje

O edital de credenciamento de jurados mostra com clareza como o modelo atual funciona.

No Bloco A, que reúne os quesitos musicais e de conjunto, podem atuar músicos, compositores, maestros, musicólogos, folcloristas e comunicólogos com experiência em cultura popular.

No Bloco B, voltado ao campo cênico e coreográfico, o edital restringe a participação a teatrólogos, coreógrafos, folcloristas e figurinistas.

Já no Bloco C, que concentra os quesitos mais densos em termos simbólicos, entram artistas plásticos, etnólogos, cenógrafos, antropólogos, folcloristas, designers e arquitetos.

À primeira vista, parece um modelo amplo. Mas não é. Na prática, o regulamento concentra quase toda sua lógica de avaliação no eixo artístico-estético. E esse é o ponto central do problema.

Cultura não é só arte

O Festival de Parintins é arte. Sem dúvida. Mas ele não é apenas isso.

O Festival é também sociologia, história, política, memória, religião, ritual e identidade coletiva.

Quando um boi apresenta um ritual indígena, por exemplo, ele não está apenas coreografando movimentos. Está mobilizando narrativas ancestrais, representações históricas e disputas simbólicas sobre pertencimento.

Quando uma galera canta em uníssono, não estamos diante apenas de animação. Estamos diante de um fenômeno coletivo de coesão social.

Quando o conjunto folclórico organiza seus elementos, ele constrói uma narrativa integrada que envolve hierarquias simbólicas, ordem estética e sentidos compartilhados. Tudo isso ultrapassa o campo exclusivo das artes. E o regulamento ainda não reconhece isso.

A ausência de sociólogos

Aqui está uma das lacunas mais evidentes. O edital simplesmente não contempla sociólogos. Isso é difícil de justificar.

A Sociologia da Cultura se dedica justamente a entender como grupos constroem sentido, organizam símbolos e produzem pertencimento. No Festival de Parintins, isso é central.

Aliás, poucos quesitos revelam isso com tanta força quanto “Organização do Conjunto Folclórico”. Esse item é, em essência, um problema sociológico.

Ele exige leitura de estrutura, coerência, integração simbólica e funcionalidade narrativa. Excluir sociólogos desse processo é limitar a inteligência interpretativa do julgamento.

A ausência de historiadores

O mesmo vale para os historiadores.

O regulamento também não os inclui. E isso é ainda mais problemático quando pensamos em quesitos como Figura Típica Regional, Lenda Amazônica, Ritual Indígena e Tuxauas. Esses itens exigem densidade histórica.

Exigem conhecimento sobre formação regional, tradição oral, permanências culturais e transformações da memória coletiva.

Em outras palavras: o festival julga história sem historiadores. É uma contradição difícil de sustentar.

O problema do notório saber

Há ainda um ponto pouco debatido. O edital reconhece o notório saber, mas restringe esse reconhecimento exclusivamente ao campo artístico. Essa escolha reduz muito o alcance da seleção.

Ficam de fora pesquisadores independentes, memorialistas, estudiosos da cultura popular e intelectuais que construíram autoridade pública sobre o tema sem necessariamente atuarem como artistas.

Ora, conhecimento cultural não nasce apenas da prática artística. Ele também nasce da pesquisa, da reflexão e da preservação da memória. Limitar isso é empobrecer o banco de jurados.

Ampliar para qualificar

Ampliar o rol de jurados não significa enfraquecer o festival. Significa fortalecê-lo.

Sociólogos, historiadores, cientistas sociais, cientistas da religião, especialistas em patrimônio imaterial, semiólogos e linguistas e, também, profissionais formados em Artes e suas especializações como dança, teatro e música poderiam enriquecer muito a qualidade analítica do julgamento.

Quanto maior a complexidade do espetáculo, maior deve ser a pluralidade de olhares. Esse é o caminho natural de maturidade institucional.

Considerações finais

Talvez essa seja a síntese de tudo. O Festival de Parintins cresceu mais do que seu regulamento. Isso não diminui sua grandeza.

Pelo contrário, mostra sua vitalidade. Mas vitalidade exige atualização. Se o espetáculo se sofisticou, o sistema de julgamento precisa se sofisticar junto.

E isso começa por reconhecer uma verdade simples: cultura popular não se esgota na arte. Ela é, antes de tudo, um modo complexo de produzir mundo.

O autor é sociólogo*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.