Pela barra pesada*
Publicado em: 09/08/2009 às 00:00 | Atualizado em: 09/08/2009 às 00:00
Wilson Nogueira**
Cansado de lidar com a turma do 171 [colarinho branco], resolvi dar uma volta na [zona] da barra pesada. A idéia era fazer uma reportagem sobre um comerciante da Baixada (coisa da cobertura policial) da Colônia Oliveira Machado que atende os seus cliente armado até os dentes: dois revólveres na cintura e mais uma espingarda de reserva, num canto de fácil acesso.
Como nunca havia estado no lugar, arrumei um guia, um cambista do jogo do bicho muito identificado com a turma dita da pesada. Acertamos tudo. Eu e o repórter-fotográfico João Araújo, também conhecido como Pedro Careca, esperamos o cambista perto da bocada, como é conhecido local no meio policial.
No horário acertado, lá aparece o cara numa motocicleta. “Vamos de moto ou de carro?” Que nada, meu, lá a gente só desce de jacina (helicóptero) ou a pé, respondeu-me o guia. No topo do barranco, João Araújo desistiu. “Fiz muitas fotos desses bichos entrando em cana. Eles podem me agarrar agora. O guia concordou com ele. A máquina dele foi colocada na minha bolsa, para ser usada apenas na entrevista com o comerciante. “Pode fazer você mesmo o serviço”, sugeriu o fotógrafo.
Descemos. O guia, como era de se esperar, é bastante cumprimentado. “Há quanto tempo fora daqui, hein? Em gíria rasgada, o guia concordava, trocava cordialidades e abria caminho: “O cara aqui é gente fina. Veio conhecer o pedaço e fazer uma reportagem com o seu Aldenor”. “Reportagem!”, reclamam todos. Olha lá, cara, não vai colocar o nome da gente no jornal. Aqui não tem malandro, não. Aqui, todo mundo é documentado”, argumenta um deles, o mais agitado, olhando-me firmemente.
Em seguida, um alívio, um pouco mais de confiança entre o pessoal da comunidade e o guia. O rapaz que faz o interrogatório oferece ao guia uma pé-de-borracha (pneu de carro) número 14. Toda essa conversa acontece durante a caminhada até ao bar do sêo Aldenor. Na Baixada não há ruas. As palafitas são interligadas por pontes de madeira. O lamaçal emite um cheiro insuportável.
O bar do sêo Alfredó localiza-se numa língua de terra. É um caixote de alvenaria a partir do qual se espalha uma puxada coberta de zinco. É frequentado por gente cheia de ginga. O sêo Aldenor é um acreano de 56 anos, ex-cabo da Polícia Militar do Amazonas, sujeito de fala mansa. No bar, o guia é encarado com desconfiança novamente. “Qual é a tua, cara. Te explica logo!”. Isso é dito quase em coro. O guia responde: Qualé, tá pensando que eu sou sujeira? O bicho aqui é jornalista. Veio falar com o sêo Aldenor”. O dono do bar está por trás das grades que o separam dos clientes. Na área coberta pela puxada, há duas mesas de bilhar ocupadas por jogadores, que se divertem, também, tomando pinga e fumando maconha à vontade.
Na fachada do bar está escrito, com letras garrafais: “É proibido o uso de tóxicos aqui neste recinto”.
Sou apresentado ao sêo Aldenor. Ele fala pouco, mas o suficiente para justificar a sua preocupação com os problemas da comunidade. A falta de segurança vem em primeiro lugar. “Isso aqui é um lugar perigoso. A gente tem que trabalhar assim: armado até os dentes. Aqui corre muita maconha, mas no meu bar ninguém faz uso dela. A ordem, aqui, está em primeiro lugar”.
O tempo fecha novamente. Os clientes não concordam com o sêo Aldenor. Um deles se manifestou de forma veemente: “Isso [o problema da segurança] é papo do sêo Aldenor. Isto aqui [a comunidade] é a maior limpeza, a maior tranquilidade. Em seguida, fala baixinho no meu ouvido: “Isso é arretamento desse velho!”. Depois, em tom mais alto, pergunta: “Como é que os outros comerciantes daqui trabalham desarmados?”. Com ar de ofendido, sêo Aldenor responde: “Problema deles! Só que aqui tem ordem. Aqui [no bar dele] ninguém fuma maconha!”.
Lembrei-me então das fotografias. Ensaiei tirar a máquina fotográfica da bolsa, mas os clientes começaram a discutir rispidamente. Imaginei que dali, para uma confusão generalizada, seria um pulo. Nesse momento, dei por encerrada a empreitada que mal havia começado. Fui até a mesa de bilhar onde estava o guia e o convidei a deixar o lugar. “Já tirou as fotos?”. Respondi-lhe: “Não, mas não fica preocupado, não. Isso aqui, do jeito que está, vai desandar para outra reportagem”.
O clima permaneceu quente. Um grupo colocou-me sob interrogatório. Repeti, por dezena de vezes, que não era um tira. De nada adiantou. Os rapazes diziam, simplesmente, que não havia diferença entre tiras e repórteres que frequentam as delegacias. Quanto a isso, não estiquei a conversa, fiquei em silêncio. Fui obrigado, pelas circunstâncias, a tomar quatro dozes de cachaça. Ainda deixei duas garrafas pagas.
Apesar do susto, foi uma ótima experiência profissional. De feras acuadas numa delegacia, a turma da barra pesada torna-se destemida no seu território.
Fui convidado a voltar em um dia qualquer na Baixada da Colônia Oliveira Machado. Ao contrário da turma do 171, que faz suas armações à luz do dia e que fecha o bico para a Justiça, corrompendo gregos e troianos, a turma da barra pesada enfia-se nos guetos, teme a Polícia e age mais durante a noite. O jogo é diferente mesmo! Quem [do gueto] cai nas malhas da lei pega porrada e ainda é mandado para o xadrez, sem que tenham acesso aos mesmos recursos da Justiça assegurados aos criminosos do colarinho branco.
*Nota do autor:
Esse texto foi publicado em 24 de agosto de 1986, no Jornal do Comércio, editado em Manaus, Amazonas.
Há algumas semanas passei de carro pela Colônia Oliveira Machado. Observei que a antiga Baixada está toda urbanizada. Lembrei-me que, por muito tempo, essa área frequentou o noticiário policial por conta, principalmente, das bocas de fumo da Rua 13 de Maio. Não havia – como ainda não há até hoje – espaço razoável à disposição do pessoal do bem, que é a grande maioria. O certo é que a Baixada da Colônia era um lugar estigmatizado como violento e dominado pelo tráfico de drogas.
Isso não significa que os traficantes e seus cúmplices não exercessem certo domínio na área. Afinal, esse tipo de gente só prospera no lugar onde o Poder Público é ausente. Urbanização também é sinal de cidadania.
**Sociólogo, jornalista e escritor.
