A crise da autodeterminação na era da supremacia do poder

O rumo das nações é moldado mais pelo poder oculto do que por votos ou acordos formais

Por Fabiano Bó

Publicado em: 10/01/2026 às 08:05 | Atualizado em: 10/01/2026 às 08:06

Há momentos na história em que um único episódio basta para revelar, como um espelho, aquilo que normalmente permanece oculto: o destino das nações raramente se decide apenas nas urnas ou nos tratados, mas se inclina, silenciosamente, nos tabuleiros do poder.

Em um mundo que proclama a democracia como valor universal, multiplicam-se pactos multilaterais ostentando a legalidade internacional como salvaguarda moral, a recente ação dos Estados Unidos da América em território venezuelano impõe um denso acontecimento que desnuda a tensão estrutural entre princípio e força.

Não se trata de um fato regional, tampouco de uma mera escaramuça diplomática, mas de um gesto que recoloca no centro do debate global a própria arquitetura da ordem construída após 1945, fundada na promessa de que nenhuma nação poderia impor pela coerção seu projeto político a outra.

Sob o argumento de combate ao narcotráfico, a defesa de direitos humanos e restauração da democracia, Washington conduziu uma operação que atingiu o núcleo da soberania venezuelana, interferindo diretamente em sua governabilidade e em seu status estratégico.

O alcance dessa intervenção pode ser medido com precisão. De acordo com a Organização das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, a Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, superiores a 300 bilhões de barris, o que corresponde a aproximadamente 18% das reservas globais.

No plano macroeconômico, dados consolidados pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Central venezuelano indicam que mais de 90% das receitas externas do país provêm do setor energético, fazendo com que qualquer ingerência sobre essa cadeia produtiva represente, na prática, uma intervenção direta sobre a autonomia econômica do Estado. Relatórios de agências internacionais de monitoramento energético registram, após a ação norte-americana, apreensão de embarcações, reconfiguração de contratos e redirecionamento de fluxos de exportação, medidas que deslocam decisões estratégicas do âmbito soberano para instâncias externas.

A controvérsia ultrapassa o material e alcança um plano normativo fundamental. O Artigo 2º, parágrafo 4º, da Carta das Nações Unidas é inequívoco ao proibir o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, salvo em hipóteses estritas de legítima defesa ou quando autorizado pelo Conselho de Segurança. Instituições acadêmicas e entidades especializadas em direito internacional reagiram com severidade, ressaltando que, ainda que exista resistência ao regime venezuelano, a intervenção militar não encontra respaldo legal e compromete o edifício normativo que sustenta a convivência entre as nações.

O ponto é decisivo: soberania e autodeterminação não são concessões condicionais a governos considerados virtuosos, mas direitos dos povos consagrados como princípios estruturantes da vida internacional.

As reações ao episódio revelam, com nitidez, a fratura de um sistema que oscila entre legalidade e conveniência estratégica. Comunidades acadêmicas do Sul Global manifestaram preocupação com a estabilidade regional e com o precedente perigoso que se estabelece quando uma superpotência decide, de forma unilateral, intervir em assuntos internos de um vizinho.

Outros, alinhados a Washington, celebraram a ofensiva como correção histórica de um regime autoritário. A divisão expôs uma tensão antiga e ainda não resolvida, até que ponto a defesa de valores universais pode justificar a suspensão de normas igualmente universais.

O que se observa, por trás da retórica da segurança e da moralidade política, é o risco de transformar a autodeterminação em princípio seletivo, aplicado conforme interesses geopolíticos e econômicos. No plano humano, os efeitos são concretos e mensuráveis.

Organismos humanitários registraram milhares de militares nos primeiros dias da operação, além do agravamento de fluxos migratórios críticos. Segundo a Agência das Nações Unidas para Refugiados, mais de 7 milhões de venezuelanos deixaram o país na última década, configurando uma das maiores crises migratórias contemporâneas.

A instabilidade produzida por ações militares externas tende a intensificar esse êxodo, transferindo para populações vulneráveis o custo político de disputas travadas nos estratos mais altos do poder. Não se trata apenas de estatísticas, mas da materialização social de decisões tomadas à distância do cotidiano de quem sofre seus efeitos.

O discurso oficial norte-americano sustenta que a intervenção visa restaurar a democracia e combater atividades ilícitas transnacionais. A história recente, contudo, sugere prudência diante dessa narrativa.

A imposição externa de modelos políticos raramente gera estabilidade duradoura; com frequência, corrói instituições, fragmenta consensos internos e cristaliza dependências estruturais. Soberania, nesse contexto, deixa de ser conceito abstrato para se converter em condição material da existência política, sem a qual o controle sobre seu território, suas decisões e seus recursos, em Estados frágeis, é rapidamente deslocado para fora.

A Venezuela denuncia a ocupação como violação direta de sua integridade territorial e convoca a comunidade internacional a defender o princípio que, se relativizado, compromete todos. Não se trata de defender governos, mas de preservar a ideia de que os povos têm o direito de decidir seus próprios destinos sem coerção externa.

Este episódio, portanto, não é apenas um capítulo isolado da política hemisférica, mas um teste decisivo para a credibilidade da ordem internacional. Se a soberania se torna negociável, se a autodeterminação pode ser relativizada por conveniências estratégicas, as garantias jurídicas do sistema global entram em processo de erosão silenciosa.

O mundo já assistiu à resenha das fronteiras políticas; mas talvez ainda não tenha visto uma era em que a força volta a disputar primazia com a norma. Ao final, a ação dos Estados Unidos na Venezuela inscreve-se como mais um divisor de águas: moral e jurídico. O futuro dirá se a comunidade internacional permitirá que a autodeterminação dos povos se converta em retórica ou se reafirmará, com a mesma veemência, como princípio que limita o poder.

O autor é cientista político, especialista em Política e Estratégia Global e secretário de Estado Chefe da Casa Civil.

Foto: Leandra Felipe/Agência Brasil