A Semana Santa de antigamente
Artigo resgata costumes religiosos do passado e contrasta rituais rígidos com celebrações mais leves nos dias atuais.
Por Flávio Lauria*
Publicado em: 03/04/2026 às 10:54 | Atualizado em: 03/04/2026 às 10:58
A semana santa, traz-me recordações. Fui coroinha da igreja Santa Rita, na Cachoeirinha. Há algum tempo o jejum, ou abstenção de alimentos, obrigatório para pessoas acima de dez anos, era sagrado. Muita gente jejuava a pão e água e outros faziam-no absoluto. Só se almoçava quando a matraca dava o sinal: com dois pedaços de madeira amarrados às mãos, o sacristão emitia o esperado som permissivo.
Era uma correria aos saborosos quitutes: feijoada, peixe cozido, frito, assado, torta de bacalhau, caruru. O cheiro das ciobas penetrando nariz adentro. Em algumas casas não se comia peixe: todo bicho que morresse era proibido.
Tristeza e imobilismo marcavam a época. Nas igrejas, os santos se cobriam com fazenda arroxeada. Os menores, dos oratórios domésticos, praticamente sumiam envoltos em crepes e sedas.
Expressões de luto e melancolia. Só se conversava sobre os sofrimentos de Jesus Cristo e assim mesmo baixinho, à meia voz.
Bondes (naquele tempo ainda tinham os bondes, na Cachoeirinha e no centro da cidade) e carros não circulavam.
Até o vento parava. Ninguém tomava banho nem se olhava no espelho. Ninguém cantava, varria terreiro ou gargalhava. Não se usava pó-de-arroz no rosto. Sexo, nem pensar! O amor erótico fechado para balanço. O baixo meretrício parecia um cemitério. As prostitutas, xales pretos às cabeças, oravam em penitência pelos insultos da carne.
O ponto alto dos festejos religiosos, na mente ingênua dos adolescentes, era o malhar do Judas. A confecção dos bonecos se processava às escondidas, num autêntico sigilo de guerra. Na hora da malhação, os bonecos eram queimados ou estraçalhados em praça pública. Barbarismo atávico do catolicismo afeito à Inquisição, que continua até hoje, não se sabendo como ficará com a descoberta do Evangelho de Judas, no qual se diz que Jesus pediu a Judas Iscariotes para o traísse, para, assim, libertá-lo do corpo. Mas, se Jesus era tão conhecido, por que, então, ele precisaria de um delator?
Jesus não era uma liderança tão conhecida do Império Romano? Ou todo grande personagem precisa de um grande traidor? Vide os políticos atuais. O que importa é repensar o papel de Judas.
Nessa mesma proporção, Judas somos todos nós, quando traímos. Melhor é não trair. Jesus não poderia pedir para ser traído. Isso é pura ficção!
Prefiro, as Semanas Santas de agora, sem o ritual de antigamente, porém com valores eternos e imutáveis, no ato litúrgico da celebração da Páscoa da paixão, morte e ressurreição do Senhor.
Feliz Páscoa para todos!
*O autor é mestre e doutor em administração pública.
Foto: divulgação
