Ajeum Mi’u: livro põe em debate a comida indígena e negra

Obra reúne saberes indígenas e negros para repensar a alimentação no Brasil a partir de territórios, tradições e resistências

Por Dassuem Nogueira*

Publicado em: 20/04/2026 às 17:19 | Atualizado em: 20/04/2026 às 17:19

Está em pré-venda “Ajeum Mi’u: confluências negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil” (Elefante, 2025), novo livro da antropóloga Inara Nascimento, amazonense, e da nutricionista Rute Costa, carioca.

O lançamento está previsto para o dia 7 de maio, na cidade do Rio de Janeiro.

O livro pode ser adquirido pelo site da editora Elefante, com frete fixo de 15 reais para todo o Brasil. O BNC Amazonas conversou com Inara Nascimento sobre o livro.

Ajeum mi’u

Inara Nascimento, da etnia Sateré Mawé, explica que:

““Mi’u” é uma palavra na língua de seu povo que significa comida, mas a gente entende que “mi’u” é uma palavra que significa mais que comida, é a comida desde o preparo, da produção do alimento, é essa comida que tem território, tem corpo, tem espírito. Então “mi’u” vem desse lugar. E “ajeum” vem do iorubá, que na realidade é “ajeum bó”, que significa “vamos comer junto”. Então realmente o título do livro é esse convite. “Ajeum mi’u” significa “vamos comer junto comida”, essa comida que vem da confluência desses territórios indígenas e negros”.

Sistemas alimentares

Um sistema alimentar é composto pelas diferentes etapas, atores e recursos envolvidos na jornada do alimento, desde seu plantio ou criação, processamento, distribuição e comercialização.

Inclui fatores sociais, políticos, econômicos e ambientais que moldam o que se come, impactando a saúde humana e o meio ambiente. São frequentemente globais, caracterizados por grandes cadeias de commodities.

Inara explica que o livro se insere no debate sobre esses sistemas:

“No debate de sistemas alimentares, eu e Rute, temos observado a ausência das perspectivas indígenas e negras. Quando a gente fala nas perspectivas dos povos indígenas, a gente tem que pensar que nós somos mais de 300 povos no Brasil. Então, nesse cenário, existem diferentes sistemas alimentares indígenas que confluem com sistemas alimentares negros, dos povos diaspóricos que vivem no Brasil”, disse a antropóloga.

Nova perspectiva

Assim, Ajeum mi’u traz uma nova perspectiva:

“Nós nos encontramos para fazer esse trabalho, que traz muito da perspectiva contra hegemônica do debate de sistemas alimentares. Esses debates estão sempre girando em torno das grandes corporações, dos grandes projetos de sistemas alimentares hegemônicos, e a gente pensa a alimentação desde as nossas roças, desde os nossos terreiros, desde os corpos de mulheres que, em grande parte, são responsáveis pela produção do alimento. Esse livro nasce nesse diálogo de epistemologias indígenas e negras”, explica Inara Nascimento.

Prosa, café e farinha

O livro de Inara Nascimento e Rute Costa é um convite a descolonização da alimentação, a começar pela linguagem que se recusa à dureza comum ao universo acadêmico no qual se inscreve.

O livro é um convite para prosear com as antropólogas. Porém acompanhadas de café feito com garapa de cana, receita Dona Preta, mestra quilombola de Machadinha (RJ). E fritinho de farinha, receita de Naná, mãe de Inara Nascimento. As receitas e modos de preparo abrem o livro.

Sobre as autoras

Inara Nascimento é mulher indígena sateré-mawé, manauara roraimada, que “naturalizou-se” roraimense quando foi admitida como professora de gestão em saúde coletiva indígena do Instituto Insikiran, da Universidade Federal de Roraima (UFRR). Além de antropóloga e professora, é poetiza, cozinheira, estudante de artes visuais, e produtora cultural na Casa Catitu, em Boa Vista, “onde só se anda de bando”, nas palavras de Nascimento

Inara Nascimento

Rute Costa é mulher negra, “cria” do morro do Kaonze/Kwanza, na Baixada Fluminense, no município do Rio de Janeiro. É estudiosa da tradição alimentar dos terreiros de mulheres negras. É nutricionista, professora adjunta do Instituto de Alimentação e Nutrição e do Programa de Pós-Graduação do Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Rute Costa

Sobre a ilustradora

As ilustrações do livro são da artista Yacunã Tuxá, artista visual e ativista indígena do povo Tuxá de Rodelas, na Bahia. Artista multidisciplinar, transita entre diferentes linguagens e suportes para pautar a luta, a resistência e a organização política das mulheres indígenas no Brasil.

Suas criações já foram expostas na Pinacoteca do Estado de São Paulo, no Museu de Arte do Rio, no Instituto Tomie Ohtake e no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

*A autora é antropóloga.

Ilustração: Yacunã Tuxá