Boi Rasgadinho: a resistência usa glitter

Em Parintins, há dois bois bumbás dedicados à comunidade LGBTQIAPN+

Boi Rasgadinho: a resistência usa glitter

Por Dassuem Nogueira

Publicado em: 24/06/2026 às 22:06 | Atualizado em: 24/06/2026 às 22:12

Em Parintins, há dois bois bumbás dedicados à comunidade LGBTQIAPN+: Boiola e Rasgadinho. Eles são chamados por seus componentes de boizinhos. Neles, integrantes da comunidade saem dos bastidores do maior festival folclórico do mundo para o centro do palco.

Na noite de 23 de junho, o boi-bumbá Rasgadinho fez sua apresentação na casa de show Empório Vip, na rua Paes de Andrade, com performance, bom humor e representatividade.

“A resistência usa glitter”, disse a apresentadora no início do show “Rasgadinho, brinquedo que rebola o ‘edizão’”.

“Edi” é um termo em pajubá, dialeto da comunidade LGBTQIAPN+, utilizada especialmente entre gays, trans e travestis, que significa bunda nesse contexto.

O elenco

O elenco do Rasgadinho utiliza nomes artísticos. São elas: cunhã-poranga Myckaelly Bumbum Guloso dos Prazeres; porta-estandarte Larissa Marialva Mendonça; Rainha do Folclore Daniele Tapajós; sinhazinha Gugura; tripa Ágata Ayumi; pajé Kabaçu Okunaneka Sayagin, a única mulher hetero cis. Além delas, destaca-se um elenco de bailarinos gays que, fazendo jus ao nome do boizinho, “se rasgam”.

O espetáculo

O espetáculo narra versões LGBTQIAPN+ dos atos do boi de arena, como a lenda amazônica que narrou uma história da sedução de botos gays, o “quilombo das bichas”, entre outros.

O boizinho Rasgadinho, diferente dos bois do festival, vem apenas com a cabeça do boi, expondo todo o corpo do tripa, em uma performance na qual expressa toda a sua delicadeza.

O lugar dos LGBTQIAPN+

Historicamente, a arte rompe padrões. Talvez por isso o universo artístico seja atraente para a comunidade LGBTQIAPN+.

Em Parintins, não é diferente. Os espetáculos do boi-bumbá de Parintins são performáticos, o que prescinde de figurino e atitude. Muitos coreógrafos, figurinistas, maquiadores, bailarinos, entre outros, são da comunidade. Porém, sua participação no centro do espetáculo era limitada até pouco tempo atrás.

Pajé

O item pajé constituiu-se, historicamente, como um posto a ser ocupado por um homem gay. Em parte, porque a dança performática do item era um tabu para os homens cuja masculinidade é construída ao avesso de tudo que possa lembrar o universo feminino.

Interessantemente, o pajé Adriano Paketá é o primeiro que, na história recente do festival, ocupa o posto sendo heterossexual. Ao assumir o posto no boi Garantido, em 2019, Paketá deu declarações bem-humoradas afirmando que o requisito “não está no contrato”.

Em pauta

Em tempos recentes, ampliou-se o debate das pautas da comunidade LGBTQIAPN+ e cresceu a importância da representatividade e da diversidade sexual e de gênero nos discursos dos bois bumbás de Parintins.

Nesse contexto, Lívia Cristina, atual rainha do folclore do boi Garantido, foi apresentada como a primeira mulher lésbica a ser item oficial, em 2023.

Primeira mulher trans

Lupi Moara foi recentemente apresentada como a primeira mulher trans a assumir um item oficial no boi Caprichoso. Lupi foi cunhã-poranga e porta-estandarte do boi Rasgadinho.

O BNC Amazonas conversou com as itens do boi Rasgadinho sobre a importância do boizinho para a comunidade LGBTQIAPN+.

Você acredita que a participação de Lupi Moara como tuxaua oficial do Caprichoso abre portas para as outras mulheres trans sonharem em ser item dos bois de Parintins?

“É uma porta que se abre para todo mundo, graças a Deus! Abriu para a diversidade, para a nossa comunidade LGBT. Se abriu para ela, pode haver outras”, disse a cunhã-poranga Myckaelly Bumbum Guloso dos Prazeres.

O que diz a porta-estandarte Larissa Marialva Mendonça:

O que o boi Rasgadinho representa para a comunidade?

“O boi Rasgadinho representa uma parte muito importante da vida da nossa comunidade porque a gente sempre tem essa vontade de se montar, de se apresentar como item. A gente vê nas meninas [itens femininos dos bois] uma inspiração e faz crescer na gente essa vontade. E o boi Rasgadinho abre portas para a gente, isso faz a gente se sentir bem, muito acolhidos. E, falando em relação à Lupi, que participou do nosso boi como cunhã-poranga e como porta-estandarte, e agora está no boi Caprichoso participando como tuxaua trans, eu vejo isso como importante para a gente. A gente está ganhando o nosso espaço, sem passar por cima de ninguém, esperando o nosso momento. Isso dá uma força muito grande para nós porque, se uma de nós tem uma conquista, todas nós ficamos felizes e nos sentimos parte dessa grande conquista. E esperamos sim que um dia os bois aproveitem o nosso talento, para que a gente também possa contribuir com eles, seja como tuxaua ou fazendo participação em alguma coisa. E realizar o nosso sonho, né, que é dançar na arena representando algum item ou fazendo alguma participação especial”.

Então, as itens femininas são a inspiração de vocês?

“Sim, as itens são inspiração para a gente. No nosso boizinho, há pessoas que trabalham como artistas de figurino, há coreógrafos, tanto do boi Caprichoso quanto do boi Garantido. Então, a gente sente essa vontade de se montar, de fazer aquela apresentação do jeito que elas fazem. Só que a gente faz do nosso jeito: alegres, sorridentes, fazendo as pessoas sorrirem, tirando risadas de uma pessoa que possa estar triste nesse momento, né? A gente não sabe o que a pessoa passa na vida. Então, é uma inspiração para a gente porque, assim como elas tiram nosso sorriso, fazem a gente se sentir arrepiados com as apresentações delas [nós também queremos fazer]”.

Como o boi Rasgadinho existe há um certo tempo, existiu o momento em que vocês sonharam em ser item do boi? Como é o processo para ser item do Rasgadinho?

“A gente conta muito com o talento, né? Eu, por exemplo, sonhava muito em mostrar o meu talento de uma outra forma porque eu só mostrava como coreógrafo por trás das itens femininas. O boizinho faz concurso ou os talentos são trazidos pelos olheiros, ou então a pessoa pode ser convidada a participar. É como se fosse realmente Garantido e Caprichoso”.

Existiu, em algum momento, a possibilidade de haver uma disputa entre boi Rasgadinho e boi Boiola?

“Sim, essa é a pergunta que todo mundo nos faz: se a gente quer realmente fazer essa disputa. Do nosso lado, sim, a gente quer se apresentar, quer viver o processo das notas, de ser julgados e tudo mais. Mas, infelizmente, ainda não tem como acontecer. A gente espera que o outro boizinho aceite. Vai fazer crescer ainda mais nossa comunidade, como estamos falando, de abrir portas para isso”.

A autora é doutora em antropologia.

Foto/vídeo: Dassuem Nogueira/especial para o BNC Amazonas