Manaus “já teve” o Bar do Armando

O poeta Aldísio Filgueiras recupera a história do Bar do Armando e mostra como a transformação urbana de Manaus ameaça espaços de convivência, memória e tradição que marcaram a identidade da cidade.

Bar do Armando em aquarela

Por Aldisio Filgueiras*

Publicado em: 27/07/2026 às 08:00 | Atualizado em: 27/07/2026 às 00:47

Nada em Manaus consegue existir mais que 30 anos. O Bar do Armando nasceu com esse prazo de validade.

Desconsiderada sua origem, nos anos 1970, quando funcionava como a mercearia “Nossa Senhora Sei lá das Quantas”, em um prédio alugado à Ordem dos Capuchinhos, o Bar do Armando consolidou sua fama ao longo dos 25 anos da ditadura civil-militar, que nunca teve muitas queixas da cidade. Foi também nesse tempo que ali nasceu uma das mais famosas e prestigiadas bandas carnavalescas de Manaus: a Banda Independente Confraria do Armando (Bica).

Os religiosos jamais imaginariam o que aconteceria ali na sua vizinhança, quando o simples comércio varejista de secos e molhados nos próximos anos, quando o mercado orientou a oferta e a procura para os produtos “molhados”, preferivelmente gelados e o exercício de se falar mal de Deus e o mundo.

Não à toa: adaptado para a venda em pequena escala, a antiga construção, de pé-direito alto, não seria capaz de resistir ao calor que crescia à proporção que se expandia e aumentava o público de jornalistas, artistas de todas as expressões e perversões – cantores, poetas, compositores e todos os que tinham algo a dizer para uma audiência que não era lá tão grande, mas bastante barulhenta para se impor.

Logo, a calçada precisou ser ocupada por cadeiras, que exigiram também um pedaço do asfalto da rua 10 de Julho, com a visão privilegiada da praça São Sebastião e do Teatro Amazonas.

O entorno do teatro fora transformado em estacionamento, porque Manaus não foi construída para automóveis. A cidade se urbanizou com feição europeia do século XIX, como centro administrativo da produção da borracha, que era exportada para produzir pneus, sem que se pensasse que voltaria montada em quatro rodas.

Foi uma dificuldade desmontar esse estacionamento, pois patrimônio histórico, na capital amazonense, é um conceito pós-moderno, e o automóvel e outros veículos automotores continuam ditando as regras do urbanismo da cidade, embora esses meios de transporte não tenham, e jamais tenham tido, por onde circular na Paris dos Trópicos.

Manaus era uma franquia urbana europeia para se viver do dinheiro da borracha, e isso também não durou mais que 30 anos. Tombamento, em Manaus, significa derrubar, literalmente, e o pedestre, o cidadão a pé, está em vias de extinção nas ruas.

A fama do Bar do Armando consolidou-se no momento tardio em que, além da compra, venda e troca administradas por trás do balcão, também havia um comércio de ideias em Manaus, hoje completamente falido e sem crédito na praça.

Em plena ditadura de civis e militares, a ex-mercearia tornou-se um centro de compra, troca e venda de ideias, energizado pela cerveja sempre bem gelada e pelo impecável sanduíche de pernil.

No bar, desmontavam-se sistemas filosóficos; derrubavam-se ditaduras (embora, no outro dia, na tortura da ressaca, continuassem de pé e autoritárias, como se nada tivesse acontecido); criticavam-se os governos populistas, que agiam com a mesma visão administrativa dos seringalistas falidos.

O Bar do Armando era uma universidade livre, muito mais verdadeira do que as poucas faculdades que formavam servidores para a máquina do novo regime extrativista inaugurado com a implantação da Zona Franca.

Era o point da cidade, frequentado por quem ia a um bar para conversar, e não para divulgar, em smartphones, quem come quem e cheira o quê. Falava-se de livros que acabavam de ser ou estavam sendo editados.

Era um bar de ideias ecumênicas e cumpria sua função dentro de uma cidade construída para a convivência, embora a explosão demográfica e a favelização, que então se iniciavam, já conspirassem para o soterramento desse espaço de cidadania.

A revitalização do Largo de São Sebastião chegou tarde demais. Ele ficará, se não o demolirem para “resgatar” o estacionamento, como um pedaço da Manaus que jamais será restaurada: não há prefeito que dê jeito.

As faculdades da Universidade Federal foram encurraladas em um campus, na Zona Leste da cidade, a quilômetros de engarrafamento do Bar do Armando. As instituições de ensino privado estão localizadas tão distantes umas das outras que só podem ser contadas ou conectadas por WhatsApp, Facebook e outros meios que só admitem 140 caracteres de escrita, para não provocar acidente vascular cerebral em seus operadores.

O Bar do Armando inscreve-se, hoje, naquela categoria de herança cultural da qual se tem apenas uma lembrança – enquanto não desaparecer a geração que ainda se lembra – e de ponto histórico para o turista que chega e sai sem saber exatamente do que se trata.

Neste momento, o Bar do Armando, tombado como patrimônio imaterial (como um prédio pode ser imaterial?), está sob ameaça de despejo. Pode ser uma premonição: o bar vai mudar de lugar – como uma tradição pode mudar de lugar?

A boemia bebe para esquecer que já não existe boemia, e as ideias continuam mais curtas. Pode ser que se esteja inventando uma tradição para outros 30 anos. Todo dia é dia de inventar uma tradição. A imprensa não cansa de festejar restaurantes e famílias que “já” têm 15 anos de tradição em Manaus.

Aos nativos sobreviventes (os que suportarem mais 30 anos, e não apenas 15), permanece o estigma de Manaus, a cidade “que já teve”. Manaus já teve o Bar do Armando.

A igreja talvez instale ali um centro de Alcoólicos Anônimos e continuará a realizar casamentos, missas de finado e outros rituais, sem a intromissão mundana da Banda da Bica, que reúne mais foliões do que a igreja reúne fiéis nos domingos de missa.

Se a franquia “Bar do Armando” se estabelecer em outro lugar, precisará criar o estatuto de uma nova tradição, com fôlego para mais 30 anos. E com um carisma, como o de seu antigo dono, difícil de replicar.

O autor é poeta, jornalista, membro da Academia Amazonense de Letras.*

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.