O pé direito e a distopia bolsonarista

A polêmica das Havaianas é sintomática desse ambiente de radicalização artificial, no qual símbolos cotidianos são arrancados de seu contexto sociocultural

Havianas artigo Aldenor Ferreira

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 27/12/2025 às 00:00 | Atualizado em: 27/12/2025 às 04:57

O Brasil vive um tempo curioso e, também, perigoso. Um tempo de grande influência bolsonarista, infelizmente. Na atual conjuntura, absolutamente tudo pode ser capturado pela lógica da guerra política permanente. Até mesmo uma campanha publicitária de sandálias. 

A recente polêmica em torno da campanha das Havaianas é sintomática desse ambiente de radicalização artificial, no qual símbolos cotidianos são arrancados de seu contexto sociocultural e lançados ao tribunal ideológico da extrema-direita bolsonarista.

A campanha, inspirada numa crença popular antiga e amplamente difundida – a de começar as coisas “com o pé direito” para atrair sorte e bons presságios –, em nenhum momento faz referência a campos políticos, partidos ou projetos ideológicos. 

Trata-se de um recurso simbólico simples, quase ingênuo, profundamente enraizado no imaginário popular brasileiro. Ainda assim, foi o suficiente para que setores da extrema-direita atribuíssem à empresa a pecha de “esquerdista”, como se o uso de uma expressão cultural fosse, por si só, um manifesto político.

O absurdo não está apenas na interpretação forçada da campanha, mas no que ela revela sobre a dinâmica atual da radicalização. O que vemos não é um debate genuíno, mas a ação calculada de influenciadores da extrema-direita, muitos deles parlamentares, que operam como empreendedores do conflito. 

Eles sabem muito bem que o objetivo de uma campanha publicitária não é defender esquerda ou direita, mas vender um produto dialogando com símbolos culturais compartilhados. Ainda assim, distorcem conscientemente a mensagem para mobilizar suas bases fanatizadas, gerar engajamento e reforçar uma identidade sectária baseada no ressentimento.

método

Nesse processo, a desinformação não é um efeito colateral: é método. Ao transformar uma crença popular em suposta ameaça ideológica, esses atores aprofundam a lógica do “nós contra eles”, radicalizam comportamentos e corroem qualquer possibilidade de convivência simbólica no espaço público. 

Nesse contexto, tudo passa a ser lido como sinal de conspiração, alinhamento político ou traição cultural. O resultado é um empobrecimento brutal do debate público e uma vigilância paranoica sobre a vida cotidiana.

Trata-se, no fundo, de um fenômeno distópico. Um país em que sandálias, cores, expressões populares, artistas, marcas e até gestos banais precisam passar pelo crivo de uma militância digital que vê inimigos em toda parte. É a política convertida em seita, em que a racionalidade cede lugar à suspeita permanente e à necessidade constante de reafirmação identitária.

A campanha das Havaianas não diz nada sobre esquerda ou direita. Mas a reação da extrema-direita diz muito sobre o estágio de degradação do debate político no Brasil. 

Considerações finais 

Mais do que um episódio isolado, esse tipo de reação revela como a extrema-direita depende permanentemente da fabricação de inimigos para se manter coesa. Quando não há fatos, cria-se a narrativa; quando não há ameaça real, inventa-se o perigo simbólico. 

Nesse cenário, marcas, artistas e expressões culturais tornam-se alvos ocasionais de um jogo cínico de mobilização política, no qual a histeria é convertida em engajamento, e o engajamento, em capital político. Defender o óbvio, que nem tudo é política partidária,passa a ser, paradoxalmente, um ato de sanidade mental e exercício democrático.

Quando até o “pé direito” vira ideologia, o problema já não está na publicidade, mas, sim, na incapacidade de distinguir cultura popular de delírio político. E isso, sim, deveria nos preocupar.

*Sociólogo

Arte: Gilmal